quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Boca

A boca é Bela
Desenhada
A voz é doce
Mansa
A palavra é pedra
Dura
Palavra Corte
Sangue
Palavra corda no pescoço
Osso
A boca é vermelha
A tua mentira
Teia
Centelha
Fogueira
Palavra louca
Palavra dura
Palavra morte
Palavra falta de sorte
Palavra...
Qualquer palavra...
Toda...
Toda palavra
Que sai de tua boca.

Roland Emmerich

Se reuniram, se reuniram como velhas desocupadas em dia de domingo, porém, o motivo pelo qual as forças da natureza se juntaram em assembléia era muito mais maligno: destruir -de novo- a raça humana.
No dia e hora marcados o ataque foi mortal, o vento soprou como nunca antes, desarrumou cabelos, levou perucas, levou também a cabeça de seus donos. Casas foram jogadas ao ar como casinhas de papel frente ao ventilador. A terra se abriu engolindo acampamentos hippies e castelos da "high society". O mar avançou com toda a sua fúria numa onda gigante, destruindo o pouco do que havia sobrado da presença do homem na terra. Numa irônia mordaz e cruel a única casa que ficou em pé, o único sobrevivente após a grande tragédia, chamava-se Roland Emmerich.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Morto

Um homem morto anda por ai, eu vi
Com olhos cansados, fundos e negros
Mãos brancas, tremulantes, cheias de manchas e pequenas veias
Um homem morto anda por ai, seu corpo leve ainda não foi levado
Uma brisa fria atravessa a rua, ele passa despercebido
Nem Deus sabe de sua existência e nem o Diabo conhece seu paradeiro
Um homem morto anda por ai, eu vi!
Escolhe frutas na feira
Inveja o sorriso da criança
E nem todo o açucar do mundo cura essa amargura
Sem porta-retrato, sem foto 3x4
Nem riso ou choro, nem velho, nem moço
Homem, vulgarmente conhecido como "cadáver"
Anda por ai, eu vi
Eu vi um homem morto por ai
Vi, me encarou severamente
De sua boca nem uma fria palavra
Seus pensamentos me congelaram a alma
Vi um homem morto, me encarou desapontado no espelho.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A falta de açúcar

Eu quero perder a visão
Quero ter amputado pernas,braços e cinismo
Quero café doce!
Açúcar derramado!
Prefiro um abraço refinado e branquinho
Sorriso de cristais
Colo mascavo!
Porque os passos são bonitos em sintonia
E dedos entrelaçados alegram as praças e os pombos
Sorrisos são os motivos de toda padaria
A vida é doce!
E eu, ando cansado de pessoas-aspartame.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Você

Acordei e calcei você
Te olhei no espelho
Te engoli, escovei você
Te cuspi
Te abotoei até o último botão
Adocei você
Eu te mastiguei no café da manhã,
No almoço e na janta
Andei você
Te li nas manchetes dos jornais
Tropecei em ti
Te vi em cada esquina, em cada sinal, cada janela
Você sorriu pra mim
Me ignorou
Me cumprimentou
E eu te abri, te li, somei, subtrai...
Ri de você
Me zanguei com você
E senti saudades sua
Será, que a única coisa que eu faço é pensar em você?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Francie Brady

Tem olhos tristes
Tem um olhar perdido
Apara a cabeça tristonha sobre mãos cansadas
Numa janela de vidros sujos observa o lago
Veste uma camisa azul desbotada
Uma bermuda de pano rasgada
Meias e sapatos velhos
Tem um peixinho dourado numa sacola
Tem uma vitrola
Tem muita saudade
Tem fome também
Tem olhos tristes
Tem um olhar perdido
Apara a cabeça tristonha sobre mãos cansadas

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O dia em que a terra parou

O gari sutilmente debruçou o queixo sobre sua vassoura e cruzou as pernas ainda em pé
O motorista passou direto do ponto sob vaias e protestos...Que logo cessaram
Sapatos bateram de frente nas calçadas
Mãos erraram seus destinos em cumprimentos falhos
E todo pescoço curvou-se de maneira lenta
Todas as cabeças, barbadas ou magras, bem feitas, loucas! Admiraram aquele momento
No que parecia um gesto coreografado todos admiraram
Pois naquele dia, naquele dia, ela saiu de casa num vestido vermelho.