quarta-feira, 23 de março de 2016



Programas de rádio
Sola de sapato
Ronronar de gato
Tua cara no porta-retratos

Café no copo
Cair da tarde
A solidão vista por outro ângulo
Sem alarde

O movimento
O som
O vento
Que entra e sai

Minha respiração lenta
No meu olhar curioso
Tatear infinito
À procura de razões

domingo, 6 de março de 2016




Separado de minha morada
em teu peito
aparte!

eu pago o tributo
em silencio
na minha resignação burra

que devorem o pouco de minha carne
e me tirem a metade das parcas horas de sono
o apetite

e assim, nossos caminhos
tomam direções opostas
apesar do mapa feito em nossos sonhos

e até eles, os sonhos
anulados, repousam
debaixo de uma papelada fria

tomo parte
da parte que me cabe
e sangro

tento, em vão
deixar tua fonte inesgotável em mim
jorrar pelo bueiro

enquanto tento entender
a risada dos que riem
a conversa dos que falam

enquanto tento rearrumar a casa
mudar os móveis de lugar
te enxergando em cada canto

enquanto tento rearrumar a mim
mudar as coisas de lugar
sabendo que ainda reside aqui

eu pago o tributo
em me forçar
a apagar teu sorriso

e todo aquele amor pulsante
em olhares firmes
em olhos lacrimejantes
em promessas
em fotografias
em juras
em frases
em dores
em cortes
em abraços fortes
de quem nunca quer se soltar....
em dormir...
em acordar...
e ser a primeira coisa que se vê
e ter a quem contar
e ter a quem dividir
e ter onde morar

bom dia
boa tarde
boa noite

como vai?
bom te ver
até qualquer dia
mande lembranças
e em caminhos distintos
a gente se esvai.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Um Filme de Wes Anderson




Com alguma relutância ela aceitou deitar em seu colo. Deitada, olhando pelo vidro do carro, falou sobre galáxias distantes, teorias de conspiração, borboletas, amores impossíveis. Tinha as mãos apoiadas na testa com as palmas viradas para cima, um gesto inconsciente de quem grita por dentro.
Ele se perguntava se aquele amor era possível. Se perguntava se estariam por ali na semana seguinte. No final das contas, não preocupou muito com o relógio. Sabia, que aquele era o único lugar em que queria estar. Mergulhado em seus olhos.
Se encararam, se analisaram. Analisaram se aquilo seria possível. Se estariam ali na próxima semana. No final das contas, não se preocuparam com o relógio. O silencio falou por um minuto. Os sentidos falaram por um minuto.


-Você tem cheiro de baunilha.
-Você tem cheiro de ração de gato.




-What kind of bird are you?
-I´m a raven

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

55 Quilos





Tão seguro de minhas inseguranças
Até o vira-latas tem complexo de mim.
A baixa autoestima
Desse ser mediano.

Meus braços magros, fracos
Não possuem metade da força de tuas palavras.
Palavra vento, que corta, derruba minha cabana de palhas, meu templo
Que levei anos pra construir.

Eu, cheio de vazio
Cheio de mim, farto de tudo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Ariovaldo e o Blues


Diante de uma TV de quatorze polegadas e um monitor de câmeras, sonhava Ariovaldo. Um jornal de ontem, um rádio de pilhas, sapatos engraxados, gravata e camisa azul. Entre a porta do elevador e a porta da rua, sonhava Ariovaldo. Sonhava o dia em que deixaria a portaria, sem olhar pra trás, sem abrir portão, sem encerar o chão. Poderia viver de sua grande paixão: “sanfonar”. Pois nas sextas, o simpático e solícito porteiro, transformava-se num exímio sanfoneiro. Nas sextas à noite, Ariovaldo era a sensação de um forro no subúrbio da cidade. Sua musica quente transformava o ambiente numa versão compacta de Sodoma e Gomorra, tamanha esfregação na pista. Nas sextas de Ariovaldo, os motéis baratos enchiam e os vidros dos carros embaçavam. Foi acusado de ser o responsável pelo aumento de crianças no bairro em que morava, o efeito “baby boom Ariovaldo”. Eram tantos os pequenos que faltava nome. Discussões surgiam e ganhava quem registrava primeiro o rebento. Variações de “Wesley”, “Wesleyson”, “Wesleiano”, “Wescley” e tantos outros, pipocaram.


Rosa, sua esposa, mal podia assistir as apresentações do marido,  alternava seu tempo entre faxinas diárias e um supletivo de noite. Nas sextas, ela preparava suco de jabuticabas, vestia sua melhor camisola e esperava pelo marido até altas horas. Este, cansado, ao chegar em  casa, tomava banho, o suco e Rosa, tudo numa golada só. Conversavam um pouquinho e dormiam entre cafunés e entrelaçar de pés. O bispo se despedia na TV. Eram felizes.


A fama do marido se espalhava e os bailes enchiam de gente. Até o suco sobrar na jarra e a janta esfriar, a camisola voltou a dormir no armário. Rosa, já não esperava mais pelo sanfoneiro, que chegava cada vez mais tarde em casa. “Ontem foi um sufoco, o pessoal não me deixava sair!” – justificava.

Na falta das justificativas, passou a evitar os olhos da mulher nos sábados pela manhã. O que se ouvia pelo bairro, era o boato de que o sanfoneiro tinha um caso com Lúcia, outros diziam ser Lídia. “Vi ele com Lili, ou seria Lívia?”- afirmava Lurdes, mulher do dono do forró. O boato corria de boca em boca, entrava e saia de vielas, velocidade incrível. O boato corria, ultrapassava sinais. Subiu escadas, desceu, tocou campainha, saiu de uma boca má e entrou direto pelos ouvidos de Rosa, devastou-a. 


Numa dessas sextas- que na verdade já era sábado, flertando com o domingo- Ariovaldo chegou em casa as cinco da manhã. O hábito lhe havia fornecido habilidade de um gato, de um ladrão, desses de Hollywood. Forçou e empurrou a maçaneta até ouvir o “click”, entrou em passos leves. A luz do poste transformava a figura de sua cabeça, projetada na parede da sala, numa figura hedionda. Foi em passos leves até o banheiro, onde batom barato e perfume desceram pelo ralo. A canastrice, nenhum desinfetante ou alvejante amenizaria. Olhou os próprios dentes no espelho, constatou o inicio de uma calvície ao pentear os cabelos pra trás. 


Ao entrar no quarto, a cama arrumada lhe causou um choque. Olhou por exatos três minutos, a cena. Que dia era aquele? Que horas seriam? Onde estaria Rosa? Culpou o relógio, a falta de lógica do mundo naquele minuto. Ajoelhou-se e apoiou as mãos na ultima gaveta da cômoda. Procurando por alguma razão, se sentiu tentado a olhar dentro das gavetas ou embaixo da cama, a procura da mulher.

Tremeu os lábios e chamou seu nome baixo: “-Rosa?”. Ninguém respondeu, só ouvia a própria respiração. Abriu o armário e se deu conta de que muitas coisas, além de Rosa, não estavam ali. Tateou em busca da camisola, tampouco ela. Sentiu-se então, naquela hora, o mais miserável de todos os homens. Deitou-se na cama, fechou-se como um caracol, usava sapatos...


(continua)