quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Poesia Ruim



Acordado! Assustado...
O latido incessante
Denuncia a falta de ração no pote
Acordado... juntando os pedaços

Na memória, ainda, algum desejo de morte
Na testa o corte
Na vida, a falta de sorte

Na boca, ainda, o gosto de fel
De Martini (batido, não misturado)
Cachaça com conhaque e mel

Deitado, ainda, de sapatos
Em mãos trêmulas na noite anterior
Atestado o registro de uma dor

Em caligrafia precária
Em garranchos
Minha agonia em papel

A dor, digna de Chico, Cartola ou Noel
O escrito em rimas primárias
Música no próximo disco de Victor & Leo.

domingo, 30 de setembro de 2012

Fragmentos


Fragmentos espalhados
Por todo canto do quarto
Frases e letras escorrendo
Vazando do peito

Metades de escritos
Quase frases
Meia coragem
Afeto inteiro

Metralho folhas de papel
De maneira tão intensa
Que pontos e vírgulas
Não entem a razão de existir

São escritos frustrados
Por não conseguirem dimensionar
O sentido das coisas
Do sentir

Talvez eu devesse gritar...

Textos abandonados
Que se agrupados
Se alinhadas, palavras por palavras
Ia se até a lua
Voltava.

Poemas sem pé, nem cabeça
Ou braço
Por dó, algumas vezes
Os entrelaço

E se não entendes
Como algo começa de um modo
E termina de outro
Pouco sabes da vida

Não existe razão em nada...

O coração só bombeia
Entope...
As pernas, bambeiam
Galope...
O cérebro, balbuciar de terminações nervosas
Esquizóide...

De onde vem então?
O que tira o chão
Aperta peito e coração
"Coração", coisa brega!

De onde vem o que me faz perder?
Perder a direção
Explico:
Vem de algum orgão sem explicação

Provavelmente do baço
Pra que serve o baço?
Ora, pra guardar a paixão!
"Paixão", palavra brega!

Ja ouvi caso
De perda de amor
Junto com o baço
O meu, anda inchado!

sábado, 22 de setembro de 2012

Passarela




Subo os degrais..
Subo os degrau?
Subo os degraus...
Subo as escadas da passarela

Bela rotina essa
Passarela
Passa ela
Por mim

Entre placas
Buzinas
Entre Rio
Itaipava

Na reta
Sentidos opostos
Olhares se cruzam
Breve momento

Motores roncam
Abaixo de nossos pés
Há sono ate ela
Há sonho até ela

O sol da manhã
Em seu cabelo dourado
Vento no pano do vestido
Fones de ouvido

Corre o dia
Acelera o peito
Segura o passo
Solta o corrimão

Depois dela
Passarela
Minha visão
Só aço frio e retorcido.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

"Entre aspas"


Começa com "amizade"
Geralmente termina na "saudade"
A questão é:
"Sempre te amei de verdade".

Se existem rimas prontas
Afeto pré fabricado
Porque logo eu
Me darei tal trabalho?

É clichê, é piegas
Cafona
Mas diz ai, "Honey baby"
Funciona!

Nosso amor é tão verdadeiro
Quanto nossa imagem no espelho
Blush, lápis de olho, creme de pentear
Suplemento alimentar

Nosso "amor" é assim...
"Entre aspas"
Tudo que me diz, ja ouvi antes
Trechos de coisas
Outras pessoas.

Se os poetas
Verdadeiros amantes
Soubessem que maculamos seus versos
Em coisa tão banal quanto, nós
Nunca escreveriam tais linhas.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Morreu Jovem



Morreu jovem
Pouco tinha visto da vida
Assassinada cruelmente
Jogada numa esquina pouco movimentada.

Morta em vão
Nada no mundo mudou depois que seu pescoço foi cortado
Nenhum casamento desfeito
Nenhum cargo ocupado
Nenhum amor conquistado
Nenhum carnê liquidado.

Morreu em vão
Não teve a dignidade de alimentar a família na mesa de domingo
Nem, a bela sensação de esquentar a casca de sua prole
De vê-la saindo do ovo com aquela carinha feia de quem come minhocas.

Morreu, sem ter escapado pra rua
Ou andado de caminhão
Como muita gente, morreu por culpa de religião
Não porque se opunha a alguma
Morreu, porque alguém inventou
Que santo como galinha com farofa
No além.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Claque



Cada gota de chuva
Uma pedrada na alma
Gotejando
Esperando.

A calma vem num andar aleijado
Cruza a esquina
Passos de lesma
A calma vem em doses homeopáticas.

Ponteiros de chumbo no teu relógio
Barro na ampulheta
Chuva lá fora
Tudo bem...

Teu estômago ronca
Mas é a alma que sente fome

É hora de sair pra comer
Se alimentar
Caçar...

Voltar pra casa
Cuspindo ossos
Vomitando dentes
Bocas.

Esse filme eu ja vi
Esse episódio é piloto
O piloto sumiu!
Sem rumo...

Mas a "claque" é fiel
Nunca omissa
Admiram tua beleza
Como devotos em missa

Choram do teu choro
E riem a cada tropeço teu
Sempre que a placa levanta.
(Risos)

A vida é mesmo uma tragédia anunciada
Cenas de um próximo capítulo que nunca chega
Fim de temporada
Gosto amargo
Deja vu.

Eu, gosto de te encontrar por ai
Dividir humor de banheiro
Sarcasmo
Torpor
Bulas de remédio.

domingo, 27 de maio de 2012

Vazio é prato cheio


Bato na mesa, com a certeza de quem mente
Deixo escapar uma mágoa pelo canto da boca
Um chiado baixo
No lado onde me falta um dente.

Péssimo ator esse na minha frente
Finge tão mal uma preocupação:
"Que lhe maltrata o coração?"
"Nada sério, que atormente"
"Conta, porque anda descrente?"
"Não é nada, juro. É esse tempo louco, ontem frio, hoje tão quente".

Alguém encheu o copo
Alguém entortou o corpo
A fumaça encheu o olhar
Eu me enchi de vazio
E o vazio encheu o lugar

Riem tanto que uma hora a risada fica gasta
E todo riso se cala, perde a graça
Tudo superficial
Tão superficial
Como essa mosca na cachaça
A moça nua no jornal.

Súbito arrepio pela nuca
A culpa, a desgraça
algo que amordaça
Silencia tudo, fica frio...
Porém, quebrado o silêncio, tudo passa
Ouvi gritos e berros
Alguém apanhou feio
"Tinha carta na manga e ai é trapaça!"

Estrangulo o riso
A moça me olha desconfiada
"Nunca reparei muito na sua cara, ela é assim, meio torta"
Faz cara (ainda torta) de quem pouco se importa...

É minha hora, é hora morta
O dono ja se mantém de pé pela porta
Uma última olhada no espelho vomitado do banheiro
Não me falta nenhum pedaço, sou um lixo, mas inteiro
Um último galanteio:
"Boa noite senhoras, boa noite cavalheiros".

Procuro meu chapéu e descubro então, que nunca tive um.
Uma olhada pro céu
Outra pro chão e então, uma oração:
"Nossa senhora dos bêbados
Que eu tenha um sono macio e justo
Na minha cama de tijolos".