quarta-feira, 8 de junho de 2011
Morreu Jovem
Morreu jovem
Pouco tinha visto da vida
Assassinada cruelmente
Jogada numa esquina pouco movimentada
Morta em vão
Nada no mundo mudou depois que seu pescoço foi cortado
Nenhum casamento desfeito
Nenhum cargo ocupado
Nenhum amor conquistado
Nenhum carnê liquidado
Morreu em vão
Nem teve a dignidade de alimentar a família na mesa de domingo
Nem, a bela sensação de esquentar a casca de sua prole
De vê-la saindo do ovinho com aquela carinha feia de quem come minhocas
Morreu sem ter escapado pra rua
Ou andado de caminhão
Como muita gente, morreu por culpa de religião
Não porque se opunha a alguma
Morreu porque alguém inventou
Que santo como galinha com farofa
No além.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Memórias de um vampiro
Dentes afiados num sorriso amarelo
Cabelo penteado pra trás
Capa, roupa preta e pesada
Longe de estacas, marretas e martelo
É certo que carrego em minhas costas alguns séculos
Ja escalei paredes de donzelas
Tomei vinho caro
Ja fui brisa, mora?
Ventania!
Maremoto!
Ja fui cão.
Ja mordi e me deixei morder na mesma proporção
Aproveitei bem a adolescência
Minha e de muitos
Frequentei a "high-society"
Só entrava onde era convidado
É certo também que fui expulso com alho
Água benta de namorados ciumentos
Eu ja fui! E isso, ja foi...
Hoje, minha roupa é motivos de piada
Meus sapatos
Minha capa
Torrei toda a fortuna dos Vlads
Em jogatinas e quebras de bolsas
Trocas de moedas e inflação
Precisei vender toda a minha coleção dos Beatles
O melhor do verão romeno 67
Hoje, ouço Cleopatra Stratan
E moro de favor na casa de um tataraneto de igor
Trabalho numa fábrica
Sou assalariado e bebo vinho barato
Carrego um morcego dentro da carteira
Não condeno mais ninguém a vida eterna
Desanimei
E a única coisa que transmito é herpes
Ah, não vejo a hora da eternidade passar.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Quando a alma sai...
Como disse minha bisavó: “Sonhos, são almas que se encontram”. Toda noite quando durmo, minha alma faz um conhecido trajeto: desce as escadas de casa e caminha alguns quilômetros em direção ao teu portão. Minha atrapalhada alma descobriu que o caminho só podia ser feito a pé, depois que seus pés passaram direto pelo pedal do acelerador do carro e as mãos não conseguiam segurar o volante.
No caminho, minha alma vê almas alheias, algumas se encontram secretamente com almas amantes, outras saltam de altos prédios e somem antes de atingir o chão. Certa vez ela viu, uma alma aflita correndo de outras almas, era curioso o modo como ela se esforçava sem sair do lugar, tentava em vão correr.
Longo tempo depois e finalmente tua casa, logo minha alma avista tua bela alma de pele morena atravessando o portão. Tua alma tem olhos de jabuticabas e veste um belo vestido vermelho, só então, minha ridícula alma percebe que veste meias, uma calça de pijamas e camiseta. Pobre alma a minha! Como em todas as noites, minha alma é ignorada pela tua, que desce a rua num andar apressado. A alma de meias não segue teu rastro, pois sabe, que é nessa hora em que o sonho vira um pesadelo, resta a resignação vazia da alma.
Numa teimosia característica, minha alma passa pelo teu portão, contorna a casa, fugindo da alma feroz de sua mãe e atravessa a parede do teu quarto, admira o teu sono e vasculha teu armário aberto, tenta acariciar teu rosto. É inicio de manhã e minha alma sutilmente desaparece do teu quarto, ela é chamada de volta pelo choro chato de um despertador, entra então num corpo mal dormido, de meias, calça de pijama e camiseta.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
É tudo mãe
É tudo mãe, irmão
Mãe de amigo
Mãe de juiz ladrão
Mãe canguru
A mãe terra
Mãe minhoquinha...
Gaia!
Mãe luz
Mãe poste
Mãe conta atrasada
Esquentando a mamadeira a luz de velas
De madrugada
É mãe de camarada
Mãe Casas Bahia
Melhor preço, apreço
A preço de custo
Custo de causa
De noite mal dormida
Mãe que vigia o berço
Mãe chá de bebê
Mãe que bebe!
Que esquece
Esqueci de si
Mamãe avestruz
Mãe de cristo
Lágrimas ao pé da cruz
É mãe de juiz
Mãe de Jesus
Mãe de avestruz
É tudo mãe, irmão.
domingo, 10 de abril de 2011
Inexistir
Meus pulsos de torneira
Pulsos de torneirinha
Escorrendo groselha
Pelo ralo da pia
Pois não vejo a hora
De deitar de meias
Me livrar desse sapato apertado
Da má postura
Da visão do chão
Pois deitado
O peso de um coração cheio de mágoa
Me corrige a postura
Deitado
Caixote adornado
Até toda memória se extinguir
O pinho ruir
O bicho roer
Qualquer resquício
De demência
De existência
De existir.
sábado, 2 de abril de 2011
Dorme menino
Reizinho ocupa 1/3 do sofá onde deita
No meu pequeno sofá, me sobram pés e cabeça
Abdico do jornal
Reizinho é adepto de revolução
E se sua vontade de assistir desenhos não for respeitada
Berra alto, taca a chupeta no chão
A mim não incomoda, reclamo não
Adoro ouvir as gargalhadas do garoto
Enquanto o gato persegue o rato na televisão.
Quando olho pro lado, reizinho ja adormeceu
Foi um dia longo
E teus pézinhos andaram tanto.
Dorme reizinho
Mãe ta na igreja
Foi pedir a Deus pra que conservasse tua saúde
Que abençoe tua beleza e esses olhos azuis
Não te maltrate a dor da saudade do que ainda não conheceu
Mãe foi pagar tributo ao senhor
Pra que não te falte o arroz, o mingau.
Quando o sono rola a última pedra em teus olhinhos
Me levanto e sigo até teu reino
Tiro todos os teus súditos no teu berço
São eles, ursos, coelhos e palhaços
Te repouso suavemente em teu leito
Com a perícia de quem muito ja o fez
Então acendo o abajur e contemplo teu sono
Faço guarda por alguns instantes.
Dorme reizinho
O reino corre perigo
Algumas batalhas não vamos vencer
É a vida reizinho
Ou, a falta dela
O que vamos temer.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Bestas, bichos e monstros
A besta vinha num passo lento
Tinha o rosto fino
E parecia ter mil anos
Soltava fumaça pela boca e pelo nariz.
Trazia no colo seu bicho
De pelo claro
Cara amassada
Unhas cortadas
Laço na cabeça
Coleira prateada.
A besta não ousava carrega-lo pelo pescoço
Temia que suas patas tocassem o cimento.
Entraram então, em grande salão
De bela almofada,de mesa adornada.
No cimento, do lado de fora
Um outro bicho observava pela janela
Tinha a cara peluda
Faltavam-lhe os dentes
Tinha unhas grandes
Estava quase nu.
O bicho do lado de fora, nem sempre foi bicho
Adquiriu tal título ao perder o juizo
Passou a andar de quatro
Carregava dentro de si, um monstro
Responsável por seu tormento
Quando lá dentro foi servido ao bicho
Arroz, aveia e cordeiro
A besta entre dentes amerelos, riu...
O bicho frente ao banquete, latiu...
O bicho do lado de fora ao fitar, gruniu...
O monstro urrou.
Maltratou-lhe o estômago
Cuspiu ácido em sua barriga
Contorceu-se de dor
De fome.
*Na PetDelicia, restaurante para cães
os pratos variam entre R$6,00 e R$25,00
Assinar:
Postagens (Atom)






