Quando deixamos a serra rumo ao mar
Saimos cedo! Madrugamos!
Escova, pente, condicionador e creme de pentear
Bancos inclináveis, conforto e rodas a girar
Uma curva, outra curva, entre elas você diz:
"Diminiu! Deixa o macaquinho atravessar"
Macaquinhos, tatus, jaguatiricas, tão belos de se olhar
Longa reta pós serra, logo,logo estamos lá
Risos embalados por boa musica, musica de Burt Bacharach
Arvores, casebres, vaquinhas a passar
Belo carro esse, optei por todos os opcionais
Em beleza e boa vida não se deve economizar!
Bela manhã de sábado, bela mulher ao meu lado
Feia praça e cancela a me cancelar!
Feia fila, funcionários e tarifa de incomodar!
Mudo o rumo, mudo a prosa mudo a reta de lugar
Espantada me perguntas:
"Onde é que isso vai dar?"
Te respondo:
"Relax honey, have you ever been in Piabetá?"
"Era isso? Pensei que iámos a Copa"
"Sim, Copa é o lugar, Piabetá é só um jeito de burlar"
"Burlar?"
"É, Burlar! Essa tarifa me recuso a pagar!"
Sobe o vidro, põe os óculos o cenário é de amargar
Tudo pobre, tudo chão duro de pisar
Cachorro magro, casa pobre, povo maltratado de trabalhar
"Liga não, Logo passa! Ta calor, Liga o ar!"
"Ai que lugar feio, por aqui você vai voltar?"
"Não! vai ser noite, alguém pode me assaltar!"
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Deus
Deus, que é um conservador de extrema direita
Quando vai em reuniões do partido, esquece de regar o seu pequeno jardim
Seca o chão, morre o gado, lata d`agua na cabeça lá vai Maria
Sede, dor, fim da plantação.
Outras vezes, Deus, grande apreciador de esportes elitistas, vai jogar Squash
Antes, corre pra regar seu pequeno jardim
Dessa vez, displicente, esquece aberta a torneira
Cheia, inundação, morre o gado, fim da plantação, descem os morros, quebram os muros.
Quando tomado pelo tédio, Deus senta-se numa confortável poltrona de nuvem...
Nesses dias, geralmente no inverno, o nevoeiro vem antes da chuva fina
Um vento gelado varre as folhas secas pela rua
Nesses dias Deus se redime
Embaçam-se vidros de carro, onde dedinhos desenham corações e juras de amor
Dentro das janelas de luzes acesas, pés juntinhos disputam espaço no edredom
Um cheiro de café invade as varandas.
Deus deveria se apaixonar mais.
Quando vai em reuniões do partido, esquece de regar o seu pequeno jardim
Seca o chão, morre o gado, lata d`agua na cabeça lá vai Maria
Sede, dor, fim da plantação.
Outras vezes, Deus, grande apreciador de esportes elitistas, vai jogar Squash
Antes, corre pra regar seu pequeno jardim
Dessa vez, displicente, esquece aberta a torneira
Cheia, inundação, morre o gado, fim da plantação, descem os morros, quebram os muros.
Quando tomado pelo tédio, Deus senta-se numa confortável poltrona de nuvem...
Nesses dias, geralmente no inverno, o nevoeiro vem antes da chuva fina
Um vento gelado varre as folhas secas pela rua
Nesses dias Deus se redime
Embaçam-se vidros de carro, onde dedinhos desenham corações e juras de amor
Dentro das janelas de luzes acesas, pés juntinhos disputam espaço no edredom
Um cheiro de café invade as varandas.
Deus deveria se apaixonar mais.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Sem titulo
Me adestra então...
Tira de mim esse vocabulário sujo
Conserta minha postura
Me proíbe o bar
As más companhias
Salva também eles de mim...
Conserta esse boêmio
Mas leva junto essa dor
E esse medo da vida
E prometa abrir a janela
Me conserta
Me adestra então...
Só não me peça pra te mastigar de boca fechada.
Tira de mim esse vocabulário sujo
Conserta minha postura
Me proíbe o bar
As más companhias
Salva também eles de mim...
Conserta esse boêmio
Mas leva junto essa dor
E esse medo da vida
E prometa abrir a janela
Me conserta
Me adestra então...
Só não me peça pra te mastigar de boca fechada.
domingo, 12 de setembro de 2010
Falta
Naquela tarde sentaram -se os dois
Hesitaram por um momento
Contemplaram o céu
Suspiraram...
A velha cadeira, um cigarro
O tapete e a falta.
Falta o cheiro de feijão
O barulho da panela
A conversa boa
Falta o rádio de pilha no programa evangélico
Ambos sentem falta e o vazio da falta de ter
O cão sente a falta do carinho
Da vasilha quase cheia
Agora vazia
O velho sente falta dos sentidos
Qual o sentido de uma bela tarde de sol?
Falta de quem o lembre de levar o casaco
E do troco certo
Do preço das coisas
Das coisas no lugar...
Anseiam ambos pelo tempo
Odeiam a noite e o armário de roupas
A cama fria de madrugada
Sentem a falta da presença feminina da casa
A "dona" se foi...
Pra sempre.
Hesitaram por um momento
Contemplaram o céu
Suspiraram...
A velha cadeira, um cigarro
O tapete e a falta.
Falta o cheiro de feijão
O barulho da panela
A conversa boa
Falta o rádio de pilha no programa evangélico
Ambos sentem falta e o vazio da falta de ter
O cão sente a falta do carinho
Da vasilha quase cheia
Agora vazia
O velho sente falta dos sentidos
Qual o sentido de uma bela tarde de sol?
Falta de quem o lembre de levar o casaco
E do troco certo
Do preço das coisas
Das coisas no lugar...
Anseiam ambos pelo tempo
Odeiam a noite e o armário de roupas
A cama fria de madrugada
Sentem a falta da presença feminina da casa
A "dona" se foi...
Pra sempre.
sábado, 4 de setembro de 2010
Teletragédia
Nas tardes de sábado, o mundo é vitima de crateras, vulcões e cometas.
Nas noites de domingo, os poucos sobreviventes se explodem com armas e granadas.
Nas noites de domingo, os poucos sobreviventes se explodem com armas e granadas.
domingo, 22 de agosto de 2010
Hoje de novo
Ela vai descer do ônibus no ponto de sempre
Vai andar um quarteirão até chegar em casa
Vai abrir o portão de modo silencioso
Deixar o tênis na porta da sala
Ela vai dar um beijo na testa da avó, que assiste TV na sala
Vai seguir o barulho de máquina de costura até achar a mãe num quarto mal iluminado
Dar um abraço por trás e ganhar um afago na nuca
Seguir até a cozinha, um prato em cima da panela espera por ela
Não, só o café, sozinha na mesa da cozinha
Café morno e olhar pro nada
Ela vai entrar no banheiro
Ligar o chuveiro
Despir-se
Vai sentir a água cair forte sobre a testa
Vai abaixar a cabeça
Vai chorar
Vai chorar copiosamente
Vai sufocar o grito
Ela sempre morre no final do dia.
Vai andar um quarteirão até chegar em casa
Vai abrir o portão de modo silencioso
Deixar o tênis na porta da sala
Ela vai dar um beijo na testa da avó, que assiste TV na sala
Vai seguir o barulho de máquina de costura até achar a mãe num quarto mal iluminado
Dar um abraço por trás e ganhar um afago na nuca
Seguir até a cozinha, um prato em cima da panela espera por ela
Não, só o café, sozinha na mesa da cozinha
Café morno e olhar pro nada
Ela vai entrar no banheiro
Ligar o chuveiro
Despir-se
Vai sentir a água cair forte sobre a testa
Vai abaixar a cabeça
Vai chorar
Vai chorar copiosamente
Vai sufocar o grito
Ela sempre morre no final do dia.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Você, Chico, eu e Maria
Eu era um milhão de pedacinhos jogados pelo chão, eu era um desses quebra-cabeças baratos, de peças de papel, vagabundo e difícil de montar. Fiquei assim depois que você se foi, com a desculpa que acabou o amor, que era melhor assim. Enquanto eu tentava me montar, pensava no real motivo de nossa separação. Por estar com o pensamento em outro lugar e por ser difícil me recompor, me montar, várias vezes coloquei a perna no lugar do braço e o fígado no lugar do coração. O pior é que quando eu ia à padaria desse jeito, as crianças choravam e velhas evangélicas me repreendiam. Eu estava um lixo!
Certo domingo de sol eu estava sentado na praça com o pensamento longe, certamente pensava em você, quando alguém se sentou do meu lado, era um amigo, um colega, conhecido, alguém que você vê uma vez na vida na casa de alguém, outra vez na morte na casa de outrem. Claro que ele não trazia boas noticias, ele me disse que ficou sabendo por intermédio de uma ex-amiga da irmã de um conhecido, que você era vista por ai acompanhada de um tal de “Chico” e que era muito comum vê-los caminhando naquela mesma praça, sempre no final da tarde. Esse meu “amigo” disse que só havia me contado o fato, pois tem um grande apreço por mim e que todos comentavam o quanto eu estava mal com sua partida. Agradeci e decidi ficar ali pela praça, pois mesmo que eu quisesse muito ir embora, eu precisava muito ficar!
Eu sabia que não estava preparado pra te ver com outra pessoa, principalmente naquele dia, pois a combinação daquele vinho barato, o “Best of” do Cat Estevens e outro homem em teus braços poderiam ser letais! Porem, eu não tinha mais nada a perder e queria ver quem era o tal sujeito. Quando o sol estava indo embora eu os avistei ao longe, caminhando calmamente os dois, perna esquerda juntos, perna direita juntos, numa sintonia invejável. Eu já era o pior dos seres humanos naquela hora, queria que a terra me engolisse inteiro, sofrer autocombustão, ser atingido por um meteoro, sumir! Nada parecia ser pior do que aquilo. Quando, olhando mais atentamente me dei conta de que não se tratava de qualquer “Chico”, não era o Chico da padaria ou o barbeiro Chico, era um que tinha um violão, belos olhos verdes e que já tinha comido todo mundo daquela rua, se tratava de Chico Buarque de Hollanda! Segurei meus pedaços e corri pra casa, passei pela porta, fechei-a, desmontei de novo.
Embora não acredite muito nesse lance de signo, dizem que o escorpiano tem um poder sobrenatural de se reinventar, de ressurgir mais forte de tamanha catástrofe, me apeguei nisso enquanto colocava uma orelha no lugar do nariz. “Assim como não há bem que dure, não há mal que perdure”; ”o tempo é o senhor da razão!”; “o castigo vem a cavalo”; “ a vingança é um prato que deve ser servido frio”; “chicotim queimado é muito bom, quem olhar pra trás, leva um beliscão”. Eu já tinha planejado uma vingança e já tinha me remontado da maneira certa, faltando um baço ou um siso, nada que fosse fazer muita falta. E embora eu tenha que aturar um cunhado chato e ter que fingir ter dor de cabeça toda noite, nenhum dinheiro no mundo poderia pagar a cara que você fez quando me viu tomando um chopp com a Maria Bethânia na mesma praça onde te vi com o tal do “Chico” que, diga-se de passagem, já estava comendo por outras freguesias.
Certo domingo de sol eu estava sentado na praça com o pensamento longe, certamente pensava em você, quando alguém se sentou do meu lado, era um amigo, um colega, conhecido, alguém que você vê uma vez na vida na casa de alguém, outra vez na morte na casa de outrem. Claro que ele não trazia boas noticias, ele me disse que ficou sabendo por intermédio de uma ex-amiga da irmã de um conhecido, que você era vista por ai acompanhada de um tal de “Chico” e que era muito comum vê-los caminhando naquela mesma praça, sempre no final da tarde. Esse meu “amigo” disse que só havia me contado o fato, pois tem um grande apreço por mim e que todos comentavam o quanto eu estava mal com sua partida. Agradeci e decidi ficar ali pela praça, pois mesmo que eu quisesse muito ir embora, eu precisava muito ficar!
Eu sabia que não estava preparado pra te ver com outra pessoa, principalmente naquele dia, pois a combinação daquele vinho barato, o “Best of” do Cat Estevens e outro homem em teus braços poderiam ser letais! Porem, eu não tinha mais nada a perder e queria ver quem era o tal sujeito. Quando o sol estava indo embora eu os avistei ao longe, caminhando calmamente os dois, perna esquerda juntos, perna direita juntos, numa sintonia invejável. Eu já era o pior dos seres humanos naquela hora, queria que a terra me engolisse inteiro, sofrer autocombustão, ser atingido por um meteoro, sumir! Nada parecia ser pior do que aquilo. Quando, olhando mais atentamente me dei conta de que não se tratava de qualquer “Chico”, não era o Chico da padaria ou o barbeiro Chico, era um que tinha um violão, belos olhos verdes e que já tinha comido todo mundo daquela rua, se tratava de Chico Buarque de Hollanda! Segurei meus pedaços e corri pra casa, passei pela porta, fechei-a, desmontei de novo.
Embora não acredite muito nesse lance de signo, dizem que o escorpiano tem um poder sobrenatural de se reinventar, de ressurgir mais forte de tamanha catástrofe, me apeguei nisso enquanto colocava uma orelha no lugar do nariz. “Assim como não há bem que dure, não há mal que perdure”; ”o tempo é o senhor da razão!”; “o castigo vem a cavalo”; “ a vingança é um prato que deve ser servido frio”; “chicotim queimado é muito bom, quem olhar pra trás, leva um beliscão”. Eu já tinha planejado uma vingança e já tinha me remontado da maneira certa, faltando um baço ou um siso, nada que fosse fazer muita falta. E embora eu tenha que aturar um cunhado chato e ter que fingir ter dor de cabeça toda noite, nenhum dinheiro no mundo poderia pagar a cara que você fez quando me viu tomando um chopp com a Maria Bethânia na mesma praça onde te vi com o tal do “Chico” que, diga-se de passagem, já estava comendo por outras freguesias.
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