terça-feira, 7 de agosto de 2012

"Entre aspas"


Começa com "amizade"
Geralmente termina na "saudade"
A questão é:
"Sempre te amei de verdade".

Se existem rimas prontas
Afeto pré fabricado
Porque logo eu
Me darei tal trabalho?

É clichê, é piegas
Cafona
Mas diz ai, "Honey baby"
Funciona!

Nosso amor é tão verdadeiro
Quanto nossa imagem no espelho
Blush, lápis de olho, creme de pentear
Suplemento alimentar

Nosso "amor" é assim...
"Entre aspas"
Tudo que me diz, ja ouvi antes
Trechos de coisas
Outras pessoas.

Se os poetas
Verdadeiros amantes
Soubessem que maculamos seus versos
Em coisa tão banal quanto, nós
Nunca escreveriam tais linhas.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Morreu Jovem



Morreu jovem
Pouco tinha visto da vida
Assassinada cruelmente
Jogada numa esquina pouco movimentada.

Morta em vão
Nada no mundo mudou depois que seu pescoço foi cortado
Nenhum casamento desfeito
Nenhum cargo ocupado
Nenhum amor conquistado
Nenhum carnê liquidado.

Morreu em vão
Não teve a dignidade de alimentar a família na mesa de domingo
Nem, a bela sensação de esquentar a casca de sua prole
De vê-la saindo do ovo com aquela carinha feia de quem come minhocas.

Morreu, sem ter escapado pra rua
Ou andado de caminhão
Como muita gente, morreu por culpa de religião
Não porque se opunha a alguma
Morreu, porque alguém inventou
Que santo como galinha com farofa
No além.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Claque



Cada gota de chuva
Uma pedrada na alma
Gotejando
Esperando.

A calma vem num andar aleijado
Cruza a esquina
Passos de lesma
A calma vem em doses homeopáticas.

Ponteiros de chumbo no teu relógio
Barro na ampulheta
Chuva lá fora
Tudo bem...

Teu estômago ronca
Mas é a alma que sente fome

É hora de sair pra comer
Se alimentar
Caçar...

Voltar pra casa
Cuspindo ossos
Vomitando dentes
Bocas.

Esse filme eu ja vi
Esse episódio é piloto
O piloto sumiu!
Sem rumo...

Mas a "claque" é fiel
Nunca omissa
Admiram tua beleza
Como devotos em missa

Choram do teu choro
E riem a cada tropeço teu
Sempre que a placa levanta.
(Risos)

A vida é mesmo uma tragédia anunciada
Cenas de um próximo capítulo que nunca chega
Fim de temporada
Gosto amargo
Deja vu.

Eu, gosto de te encontrar por ai
Dividir humor de banheiro
Sarcasmo
Torpor
Bulas de remédio.

domingo, 27 de maio de 2012

Vazio é prato cheio


Bato na mesa, com a certeza de quem mente
Deixo escapar uma mágoa pelo canto da boca
Um chiado baixo
No lado onde me falta um dente.

Péssimo ator esse na minha frente
Finge tão mal uma preocupação:
"Que lhe maltrata o coração?"
"Nada sério, que atormente"
"Conta, porque anda descrente?"
"Não é nada, juro. É esse tempo louco, ontem frio, hoje tão quente".

Alguém encheu o copo
Alguém entortou o corpo
A fumaça encheu o olhar
Eu me enchi de vazio
E o vazio encheu o lugar

Riem tanto que uma hora a risada fica gasta
E todo riso se cala, perde a graça
Tudo superficial
Tão superficial
Como essa mosca na cachaça
A moça nua no jornal.

Súbito arrepio pela nuca
A culpa, a desgraça
algo que amordaça
Silencia tudo, fica frio...
Porém, quebrado o silêncio, tudo passa
Ouvi gritos e berros
Alguém apanhou feio
"Tinha carta na manga e ai é trapaça!"

Estrangulo o riso
A moça me olha desconfiada
"Nunca reparei muito na sua cara, ela é assim, meio torta"
Faz cara (ainda torta) de quem pouco se importa...

É minha hora, é hora morta
O dono ja se mantém de pé pela porta
Uma última olhada no espelho vomitado do banheiro
Não me falta nenhum pedaço, sou um lixo, mas inteiro
Um último galanteio:
"Boa noite senhoras, boa noite cavalheiros".

Procuro meu chapéu e descubro então, que nunca tive um.
Uma olhada pro céu
Outra pro chão e então, uma oração:
"Nossa senhora dos bêbados
Que eu tenha um sono macio e justo
Na minha cama de tijolos".

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Memórias de um vampiro


Dentes afiados num sorriso amarelo
Cabelo penteado pra trás
Capa, roupa preta e pesada
Longe de alho,estaca e martelo

É certo que carrego em minhas costas alguns séculos
Ja escalei paredes de donzelas
Tomei vinho caro
Ja fui brisa, mora?
Ventania!
Maremoto!
Ja fui cão
Ja mordi e me deixei morder na mesma proporção

Aproveitei bem a adolescência
Minha e de muitos
Frequentei a "high-society"
Só entrava onde era convidado
É certo também que fui expulso com alho
Água benta de namorados ciumentos

Eu ja fui! E isso, ja foi...
Hoje, minha roupa é motivos de piada
Meus sapatos
Minha capa
Torrei toda a fortuna dos Vlads
Em jogatinas e quebra de bolsas
Trocas de moedas e inflação
Precisei vender toda a minha coleção dos Beatles
O melhor do verão romeno 67

Hoje, ouço Cleopatra Stratan
E moro de favor na casa de um tataraneto de igor
Trabalho numa fábrica
Sou assalariado e bebo vinho barato
Carrego um morcego dentro da carteira
Não condeno mais ninguém a vida eterna
Desanimei
E a única coisa que transmito é herpes
Não vejo a hora da eternidade passar.

domingo, 29 de abril de 2012

Bestas, bichos e monstros


A besta vinha num passo lento
Tinha o rosto fino
E parecia ter mil anos
Soltava fumaça pela boca e pelo nariz.
Trazia no colo seu bicho
De pelo claro
Cara amassada
Unhas cortadas
Laço na cabeça
Coleira prateada.
A besta não ousava carrega-lo pelo pescoço
Temia que suas patas tocassem o cimento.
Entraram então, em grande salão
De bela almofada,de mesa adornada.
No cimento, do lado de fora
Um outro bicho observava pela janela
Tinha a cara peluda
Faltavam-lhe os dentes
Tinha unhas grandes
Estava quase nu.
O bicho do lado de fora, nem sempre foi bicho
Adquiriu tal título ao perder o juizo
Passou a andar de quatro
Carregava dentro de si, um monstro
Responsável por seu tormento
Quando lá dentro foi servido ao bicho
Arroz, aveia e cordeiro
A besta entre dentes amerelos, riu...
O bicho frente ao banquete, latiu...
O bicho do lado de fora ao fitar, gruniu...
O monstro urrou.
Maltratou-lhe o estômago
Cuspiu ácido em sua barriga
Contorceu-se de dor
De fome.


*Na PetDelicia, restaurante para cães
os pratos variam entre R$6,00 e R$25,00

domingo, 15 de abril de 2012

Pedro e Marcelo (final)


Foi difícil voltar pra casa, foi difícil encarar o rádio de pilhas, a mesa de jantar, a caixa de ferramentas, as roupas no armário. Pedro se sentia como uma casca, algo oco, sem sentido. Deitava em sua cama e chorava por horas com a cabeça no travesseiro, apoiava-se na fragilidade da mãe, tão franzina e fraca como o próprio filho. Sentados no sofá da sala, acompanhados pelo “tic-tac” desesperado e angustiante do relógio.
Aos poucos, os ponteiros lentos do relógio da parede foram colocando as coisas no lugar: a casa abriu as janelas, o sol entrou de mansinho, ouviu-se o movimento na rua, tocou uma música boa no rádio. Cansado da janela e da TV, Pedro decidiu andar, só andar, não muito longe, andar pra chegar em lugar nenhum, andar! Saiu com passos lentos e inseguros, atravessou a rua e continuou andando, olhava sempre pra baixo. Mirou dedos vazando de uma sandália e colidiu em algo fofo, olhou pra cima e viu um enorme rosto rosado, ainda maior pela lente de seus óculos. A curiosidade de Berenice torturava o pequeno. Pedro nessa hora era uma dessas xícaras de café cheia até a borda, que você sabe que vai derramar enquanto leva a boca. E ele transbordou, lembrou do pai, de toda a dor, da saudade. Saiu correndo enquanto Berenice ainda perguntava todo tipo de coisa. Correu, correu até o campinho, queria sumir. Parou debaixo da jabuticabeira, abaixou a cabeça e colocou as mãos no joelho, tentava respirar e tentava não chorar, a asma só dava chance para uma coisa de cada vez e ele decidiu respirar. Engoliu o choro e encostou na árvore. Reconheceu os cabelos dourados de Marcelo sob o sol, no campinho, lá em baixo. Marcelo viu o amigo em pé em baixo da jabuticabeira. Os dois se observaram de longe por um tempo.
O céu estava colorido de pipas, lentamente a pipa de Marcelo pousava, enquanto ele enrolava a linha sem pressa. “Desculpem, mas eu preciso ir” disse sua pipa as outras, e desceu. Colocou pipa e carretel no chão e foi andando em direção ao amigo. Subiu o caminho de pedras sem pressa nenhuma, parou por um estante, olhou pro céu como se observasse as outras pipas, fez uma cara séria como se analisasse a competição, tapou o sol com a mão sobre a cabeça. Voltou então a subir o caminho até a jabuticabeira, agora olhava os próprios pés. Parou a certa distância do quatro-olhos e esboçou um sorriso, logo voltou atrás e fechou a boca subitamente! Imaginou que não era legal sorrir naquela hora. Abriu a boca e tentou dizer algo, fechou. Abriu a boca e fechou novamente, não sabia o que dizer. Pedro apenas olhava. Marcelo coçou a cabeça, tinha a boca contorcida. Então, se aproximou de Pedro, olhou através dos óculos, olhou bem nos olhos do pequeno, tinha um rosto sereno nessa hora. Marcelo enrolou os braços em volta do amigo de uma maneira desajeitada, bruta, era a primeira vez, em 11 anos que ele abraçava alguém. Abraçou forte, quase sufocou o pequeno. Marcelo abraçava ali a Pedro, abraçava a mãe que perdeu ainda bebê, abraçava o pai que nunca conheceu. Pedro foi forte e pela primeira vez na vida conseguiu administrar o choro, a asma e um abraço sufocante. Marcelo voltou os braços pra junto do corpo, sentia-se envergonhado e aliviado “é bom abraçar” pensou. Deu um tapa no ombro de Pedro e disse: “É muito viado mesmo”. Pedro riu.