quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Sai dessa igreja menino...vai pro bar (revisitado)



Andamos reto sobre calçadas tortas
Sapatos devoram pedaços inteiros de asfalto
Há pressa em chegar
Enquanto a cidade dorme um sono tranquilo
Velhos e suas pantufas
Livros de auto-ajuda, chá.
O rádio prega a mensagem
Um copo d'água ouve atenciosamente.
Esse roxo era um blues, evoluiu
Cada um traz sua própria gaita
Enquanto a filosofia (de buteco)
Vem acompanhada de batata.
O afeto na bar, margeia o teto
Transborda o copo
E o blues ameniza, quase passa
O blues, é agora, azul claro, manso.
Na volta, os sapatos não tem pressa
a cabeça, ja não pesa
Andamos torto sobre calçadas retas.


*Na foto, Tim Maia na infância (obvio), em curso para coroinha.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Shopping


Esqueça a criança no carro
Num estacionamento lotado.
A melhor foto ganha
A melhor frase ganha
O manequim me encara
Eu pareço mal arrumado
Fora de moda.
Molecada
Correria
Berro e meleca
Fraldário
A funcionária possui sorriso estático
Mas queria ter um machado
O nome no crachá é comum
O uniforme é borrado.
Pipoca e creolina
Cinema
Filme dublado
Ninguém fala a mesma língua
Você paga inteira
O anão paga meia
E o bebê metade de meia.
Testosterona
Boné aba reta
Cabelos hermeticamente desarrumados
Pescoço duro
Tênis solado alto
Emborrachado.
Loiras de andar afetado
Sorriso metálico
Rebolado magro
Desajeitado
Loiras...
Morenas querendo ser loiras
Ruivas querendo ser loiras
Mulatas querendo ser loiras
Poodles
Meninos e velhos...
Querendo ser loiras.
Último dia!
Última hora!
Últimos instantes!
Corra!
Passe por cima de qualquer coisa!
Últimos segundos da promoção!
Na compra de produto chinês superfaturado
Grátis...
Retrato de Jesus autografado.

sábado, 3 de novembro de 2012

Carta ao Suicida



Deixe essa ideia martelar na tua cabeça
Essas vozes
Tua conciência
As buzinas

Tuas pernas cansadas
Descanse
Teu olhar fundo
Mergulhe

Subir escadas é subir na vida
Pular dai
O fim dela
De tudo

Ponteiros e pontadas
Filas e números
Dor nas costas
Chaga, na alma

O trânsito tem pressa
As pessoas na passarela
Precisam chegar em casa
Assistir a novela

Sapatos estacionados
Um pescoço esticado
E uma conclusão:
"Ah, mais um?"

Você não precisa de conselho
Dinheiro ou perdão
É que... passou, como um vento frio
Um vazio, e é hora de misturar-se ao chão

Ser noticia de meio minuto na televisão
Conversa de botequim
Entre cachaça, média e mordida de pão.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Poesia Ruim



Acordado! Assustado...
O latido incessante
Denuncia a falta de ração no pote
Acordado... juntando os pedaços

Na memória, ainda, algum desejo de morte
Na testa o corte
Na vida, a falta de sorte

Na boca, ainda, o gosto de fel
De Martini (batido, não misturado)
Cachaça com conhaque e mel

Deitado, ainda, de sapatos
Em mãos trêmulas na noite anterior
Atestado o registro de uma dor

Em caligrafia precária
Em garranchos
Minha agonia em papel

A dor, digna de Chico, Cartola ou Noel
O escrito em rimas primárias
Música no próximo disco de Victor & Leo.

domingo, 30 de setembro de 2012

Fragmentos


Fragmentos espalhados
Por todo canto do quarto
Frases e letras escorrendo
Vazando do peito

Metades de escritos
Quase frases
Meia coragem
Afeto inteiro

Metralho folhas de papel
De maneira tão intensa
Que pontos e vírgulas
Não entem a razão de existir

São escritos frustrados
Por não conseguirem dimensionar
O sentido das coisas
Do sentir

Talvez eu devesse gritar...

Textos abandonados
Que se agrupados
Se alinhadas, palavras por palavras
Ia se até a lua
Voltava.

Poemas sem pé, nem cabeça
Ou braço
Por dó, algumas vezes
Os entrelaço

E se não entendes
Como algo começa de um modo
E termina de outro
Pouco sabes da vida

Não existe razão em nada...

O coração só bombeia
Entope...
As pernas, bambeiam
Galope...
O cérebro, balbuciar de terminações nervosas
Esquizóide...

De onde vem então?
O que tira o chão
Aperta peito e coração
"Coração", coisa brega!

De onde vem o que me faz perder?
Perder a direção
Explico:
Vem de algum orgão sem explicação

Provavelmente do baço
Pra que serve o baço?
Ora, pra guardar a paixão!
"Paixão", palavra brega!

Ja ouvi caso
De perda de amor
Junto com o baço
O meu, anda inchado!

sábado, 22 de setembro de 2012

Passarela




Subo os degrais..
Subo os degrau?
Subo os degraus...
Subo as escadas da passarela

Bela rotina essa
Passarela
Passa ela
Por mim

Entre placas
Buzinas
Entre Rio
Itaipava

Na reta
Sentidos opostos
Olhares se cruzam
Breve momento

Motores roncam
Abaixo de nossos pés
Há sono ate ela
Há sonho até ela

O sol da manhã
Em seu cabelo dourado
Vento no pano do vestido
Fones de ouvido

Corre o dia
Acelera o peito
Segura o passo
Solta o corrimão

Depois dela
Passarela
Minha visão
Só aço frio e retorcido.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

"Entre aspas"


Começa com "amizade"
Geralmente termina na "saudade"
A questão é:
"Sempre te amei de verdade".

Se existem rimas prontas
Afeto pré fabricado
Porque logo eu
Me darei tal trabalho?

É clichê, é piegas
Cafona
Mas diz ai, "Honey baby"
Funciona!

Nosso amor é tão verdadeiro
Quanto nossa imagem no espelho
Blush, lápis de olho, creme de pentear
Suplemento alimentar

Nosso "amor" é assim...
"Entre aspas"
Tudo que me diz, ja ouvi antes
Trechos de coisas
Outras pessoas.

Se os poetas
Verdadeiros amantes
Soubessem que maculamos seus versos
Em coisa tão banal quanto, nós
Nunca escreveriam tais linhas.