terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sonho

Era tudo antigo naquela padaria. O letreiro com o nome do estabelecimento era patrocinado por um refrigerante extinto a décadas. A balança ainda era daquelas em que se puxava um pesinho prum lado, pro outro, só um toque, Pronto!
duzentos gramas de mortadela de frango. Antigo também era o seu dono, sempre mal-humorado, cigarro na boca e caderno de esportes na mão.
Quando o guri venceu o medo do sujeito mal encarado no caixa, que ficava logo na entrada da padaria, correu para os fundos, onde um balcão de frios e doces se escondia. Atrás do balcão uma menininha também, forçada pela vida a ser mulher antes de brincar de casinha. Ela limpava um cortador de frios, cego e empoeirado. Na ponta dos pés o garoto perguntou então a atendente:
-Oi,você tem sonho?
Então, lentamente a menina parou o trabalho, olhou com um olhar pesado e triste os olhinhos e as mãos que se apoiavam com dificuldade no balcão e respondeu:
-Eu acordo as cinco, me arrumo, esquento o café, acordo a menina, visto ela, saio com pressa pra não perder o ônibus, deixo a menina na creche, venho andando até aqui. Trabalho até as duas, saio,engulo qualquer coisa, dou um jeito na casa e pego umas costuras pra fazer, ainda busco a menina na creche, então tenho que fazer comida, arrumar a marmita pro marido...mal vejo a novela e durmo! Não menininho, eu não tenho mais sonhos não.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Na fazenda

Achei que era só no vale do silício que ocorriam as disputas.
Achei que apenas debaixo das sombras dos arranha-ceús que se mastigava um ao outro
Entre um cachorro-quente e um café.
Achei que só se falava da vida alheia em salões de beleza e porta de boteco
Achei que na cidade grande, gente pequena falava de pessoas miúdas!
Falar, mastigar, cuspir, achar, imaginar, indagar, fofocar...
Cansado de dentinhos podres mastigando fofocas em linguas verdes de sujeira e bafos de milênios de maldades
Uma semana na fazenda
Uma cura pra essa dor nas costas, um descanso para os olhos
Longe das noticias, das janelas, dos "pop ups"!
Ledo engano o meu...Assim como na cidade, o campo carrega suas intrigas
O pangaré solitário reclama da vida,chora e diz que vai embora
A vaquinha, deixa seus bezerrinhos famintos enquanto pasta por ai, procurando noticias quentes
Shiiii! A parede do celeiro tem ouvidos!
Evite ser visto com as galinhas
Passe longe do lago, tem piranha lá...
E o boi muge, bezerro berra, bode bodeja, cão late, ovelha berrega, pato grasna,
cuco cuca, burro zorna, grilo grizalha, sapo coaxa...
Tanto lá, quanto aqui:
"Já soube?"
"Wrebet"
"Tu viu?"
"Cocóricoooooo"
"Então, não tenho certeza, mas.."
"Muuuuuuuuuuuuuuuuuuu"
"Ta vendo aquela lá?"
"Quém,quém,quém!".

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Have you ever been in Piabetá?

Quando deixamos a serra rumo ao mar
Saimos cedo! Madrugamos!
Escova, pente, condicionador e creme de pentear
Bancos inclináveis, conforto e rodas a girar
Uma curva, outra curva, entre elas você diz:
"Diminiu! Deixa o macaquinho atravessar"
Macaquinhos, tatus, jaguatiricas, tão belos de se olhar
Longa reta pós serra, logo,logo estamos lá
Risos embalados por boa musica, musica de Burt Bacharach
Arvores, casebres, vaquinhas a passar
Belo carro esse, optei por todos os opcionais
Em beleza e boa vida não se deve economizar!
Bela manhã de sábado, bela mulher ao meu lado
Feia praça e cancela a me cancelar!
Feia fila, funcionários e tarifa de incomodar!
Mudo o rumo, mudo a prosa mudo a reta de lugar
Espantada me perguntas:
"Onde é que isso vai dar?"
Te respondo:
"Relax honey, have you ever been in Piabetá?"
"Era isso? Pensei que iámos a Copa"
"Sim, Copa é o lugar, Piabetá é só um jeito de burlar"
"Burlar?"
"É, Burlar! Essa tarifa me recuso a pagar!"
Sobe o vidro, põe os óculos o cenário é de amargar
Tudo pobre, tudo chão duro de pisar
Cachorro magro, casa pobre, povo maltratado de trabalhar
"Liga não, Logo passa! Ta calor, Liga o ar!"
"Ai que lugar feio, por aqui você vai voltar?"
"Não! vai ser noite, alguém pode me assaltar!"

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Deus

Deus, que é um conservador de extrema direita
Quando vai em reuniões do partido, esquece de regar o seu pequeno jardim
Seca o chão, morre o gado, lata d`agua na cabeça lá vai Maria
Sede, dor, fim da plantação.
Outras vezes, Deus, grande apreciador de esportes elitistas, vai jogar Squash
Antes, corre pra regar seu pequeno jardim
Dessa vez, displicente, esquece aberta a torneira
Cheia, inundação, morre o gado, fim da plantação, descem os morros, quebram os muros.
Quando tomado pelo tédio, Deus senta-se numa confortável poltrona de nuvem...
Nesses dias, geralmente no inverno, o nevoeiro vem antes da chuva fina
Um vento gelado varre as folhas secas pela rua
Nesses dias Deus se redime
Embaçam-se vidros de carro, onde dedinhos desenham corações e juras de amor
Dentro das janelas de luzes acesas, pés juntinhos disputam espaço no edredom
Um cheiro de café invade as varandas.
Deus deveria se apaixonar mais.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sem titulo

Me adestra então...
Tira de mim esse vocabulário sujo
Conserta minha postura
Me proíbe o bar
As más companhias
Salva também eles de mim...
Conserta esse boêmio
Mas leva junto essa dor
E esse medo da vida
E prometa abrir a janela
Me conserta
Me adestra então...
Só não me peça pra te mastigar de boca fechada.

domingo, 12 de setembro de 2010

Falta

Naquela tarde sentaram -se os dois
Hesitaram por um momento
Contemplaram o céu
Suspiraram...
A velha cadeira, um cigarro
O tapete e a falta.
Falta o cheiro de feijão
O barulho da panela
A conversa boa
Falta o rádio de pilha no programa evangélico
Ambos sentem falta e o vazio da falta de ter
O cão sente a falta do carinho
Da vasilha quase cheia
Agora vazia
O velho sente falta dos sentidos
Qual o sentido de uma bela tarde de sol?
Falta de quem o lembre de levar o casaco
E do troco certo
Do preço das coisas
Das coisas no lugar...
Anseiam ambos pelo tempo
Odeiam a noite e o armário de roupas
A cama fria de madrugada
Sentem a falta da presença feminina da casa
A "dona" se foi...
Pra sempre.

sábado, 4 de setembro de 2010

Teletragédia

Nas tardes de sábado, o mundo é vitima de crateras, vulcões e cometas.
Nas noites de domingo, os poucos sobreviventes se explodem com armas e granadas.