domingo, 21 de agosto de 2011

Chinelos



Quando eu abro os olhos, encaro um teto feio de tijolos. É cedo, tão cedo, que até os fornos das padarias dormem. Apoio o dedo sobre o despertador e num movimento mecânico, o calo antes que ele desperte. Minha senhora se vira pra mim, também num movimento mecânico e numa mistura de amor e rotina, me beija a testa. De volta ao seu travesseiro ela tenta recolher vestígios de algum sonho bom.
Enquanto me arrumo, a chaleira geme baixinho, requentando um café de ontem. Ele desce como lava, num estômago apressado e mal-jantado. Pego mochila, cigarros, marmita, palavra-cruzadas e saio.
Sobre a soleira da porta, ao lado de meu sapato triste e gasto, um chinelinho rosa me pede um afago. Retorno e entro no quarto da menina. Me sento devagar em sua cama e a observo dormir. Meu carinho bruto, numa mão pesada de massa a acorda assustada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Só os egoistas se apaixonam


Indiferente a tudo o que é dito perto da lousa, João observa Bianca pelo canto do olho.
João é um adorador de ruídos em altos decibéis (algo que ele chama de musica) e além de sua paixão por Bianca, também é apaixonado por carros. Sempre em seus devaneios ele imagina como seria ter a moça ao seu lado. Fantasia a felicidade de Bianca ao estar com ele dentro do seu carro, de ouvir musica muito alta e ainda tentar conversar! Falar sobre tamanho de rodas e descobrirem juntos a melhor cera para polimento...
Bianca, atenta a tudo o que diz o professor, tem pouco tempo para pensar em Augusto. Pouco é o tempo que ela compartilha com ele, apenas no ponto do ônibus, pela manhã.
Augusto (a quem Bianca chama em seus sonhos de Carlos, pois ainda não sabe seu nome) é sério, e sempre de fones no ouvido. "Deve ser algum curso de inglês o que ele ouve ali, ouvi dizer que é um ótimo método" pensa a jovem sonhadora ao observar Augusto. Bianca já consegue enxergar os dois juntos na biblioteca discutindo filosofia. Cada um com seu pensador preferido. Entre uma discussão e outra, ela deita a cabeça no ombro do rapaz...
Augusto, que pega o mesmo ônibus que Bianca todas as manhãs, trabalha numa fábrica e ouve heavy metal, sempre a mesma banda. Sua música foi apelidada no trabalho de "bate-estaca". Augusto é trabalhador e sério. Adora a hora do almoço, quando se senta de frente para Sheila e timidamente observa seu belo corpo. Os cabelos, as coxas, tudo. Ele imagina o que ela veste por baixo daquela roupa bem comportada. "Uma calcinha minúscula" é tudo o que ele pensa. Sheila, na verdade é adepta da cueca "samba-canção".
Eu, te imagino chegando na minha varanda, com teu passo leve e cabelos soltos. Traz numa das mãos uma garrafa de café bem doce e na outra mão poemas de Quintana. Deitas no meu colo e enquanto eu mexo nos teus cabelos, você me diz, o quanto gosta dessas idiotices que eu escrevo.

Só os egoístas se apaixonam...

sábado, 6 de agosto de 2011

Designação



Era medo da danação?
Era designação?
Era a falta do pão?
Era uma biblia na mão?

Quando perdeu o emprego
Chico viu-se em aflição
Fitou o moleque no berço
Faltou-lhe o chão

Era medo da danação
Coisa superior
Era designação
Simples homem do interior

Numa garagem empoeirada
Viu a cura do ócio
Propagar a palavra
Começar próspero negócio

Pequeno amplificador
Boca no microfone
palavra contra a dor
Resposta para a fome

Bater ponto é ultrapassado
Gritar o nome de Emanuel
Abraçar o irmão ao lado
Garantir o aluguel

Desempenhar multi-funções
Limpar letreiro
Decorar algumas orações
Desconfiar do tesoureiro

Chico é homem mudado
Anda pensando em televisão
Usa terno caro
Vem na próxima eleição

Era designação?
Era medo da danação?
Era falta de pão?
Nada...
Era falta de imaginação.

sábado, 30 de julho de 2011

A superficie do poço


Esse reflexo da moça
Na superficie da poça
Olhos rasos
Mãos finas
Cabelos ralos
É vento que não apaga fogo, moça
É brasa que não esquenta
Passo leve
Sem pegadas
Sem marca
Ou cicatriz
É uma leve torcida de nariz
Dar de ombros
Largar de mão
A moça é trampolim à dois palmos do chão
Linha reta em pulsar de coração
O amor dela vai pra sempre em mim
Como tatuagem de chiclete
Mato sem jardim
A saudade é um lembrete em porta de geladeira
Sua cura em dez gotas de dipirona
Pois saiba, moça
Que cheguei ao meu limite
Ando cansado, embora moço
Cheguei eu
Na superficie do poço.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Choro pop





Me sento de frente pra rua, observo o movimento dos carros, das pernas apressadas. Aqui nenhuma pressa, só um “pingar”, um gotejamento na alma esperando calmamente a hora de transbordar. É relativamente cedo, o sol ainda não foi embora e o apresentador de todas as desgraças alheias ainda não deu as caras pela TV. Dizem que a dor dos outros ameniza um pouco a nossa própria dor, então peço uma cerveja e me dirijo a uma máquina calada nos fundos do bar. Ela me olha como se me conhecesse de longa data. Enfio uma nota pela boca dela e em sua tela aparecem tantas opções de choros e tristezas, tantos cortes de cabelo diferentes e roupas cafonas, fora de moda a milênios, queria eu, que a vida tivesse me dado metade das opções que a máquina me dá.
Estão lá: Richie, John, Bob, Johnny, Robert, Rod e tantos outros. Eu os conheço, eles nunca ouviram falar de mim. Aperto a cara de Joe Lynn e peço que compartilhe um pouco de sua dor comigo, nunca tive a pretensão de que ele ouvisse a minha, ele fala demais e quase não deixa um espaço pro sintetizador aparecer, porém possui bela voz. De volta a minha mesa, esqueço um pouco meus problemas e tento imaginar o que aflige o meu amigo dentro da caixa de som. Será que ele já superou essa dor? Ele finalmente se casou com Caroline e vive numa bela casa de madeira, tem quatro filhos e honra com sua hipoteca? Há vinte anos ele sofre pela mesma garota, cresce rapaz! Eu até entendo que deva ser difícil, um dia tocar pra grandes estádios e hoje ter que viver dentro de uma maquininha. Você não vive de royalties? Mesmo só tendo um sucesso, imagino que deu pra ganhar algum dinheiro, não? Você reclama de barriga cheia! Vive de Royalties, queria ver se fosse como eu, e tivesse que se virar com o seguro desemprego, seis meses passam rápido, sabia?
Seu, seu chato! Você tá por cima, na américa de cima! Você deveria se envergonhar de mendigar o dinheiro de um pobre sul-americano, seu capitalista de merda! Tô começando a odiar você, seu corno!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Minha Religião




Te amo, e te amo tanto
Que te amaria sendo você o que fosse
Se tu fosses uma dessas crentes fanáticas
De saião no pé e cheia de fé
Ainda assim, te amaria.
E se meu ateísmo convicto fosse pra ti, um problema
Eu aceitaria então, vestir terno, gravata e bíblia
Andaria por ai, de vigília em vigília
Teu "aleluia" me arrepiaria os cabelos da nuca!
Eu viveria da fé em nós dois.
Jesus, morreria de desgosto em saber que fui ao pai
Não por ele, mas por você.
Aceitaria com um desejo resignado
Tua saia longa, tua gola alta
Mesmo assim, mesmo assim, o pouco do teu corpo
que se revelasse para mim...
Eu poderia perder noites de sono
Lembrando de tuas canelas nuas
Ah, essas tuas canelas nuas...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Morreu Jovem



Morreu jovem
Pouco tinha visto da vida
Assassinada cruelmente
Jogada numa esquina pouco movimentada
Morta em vão
Nada no mundo mudou depois que seu pescoço foi cortado
Nenhum casamento desfeito
Nenhum cargo ocupado
Nenhum amor conquistado
Nenhum carnê liquidado
Morreu em vão
Nem teve a dignidade de alimentar a família na mesa de domingo
Nem, a bela sensação de esquentar a casca de sua prole
De vê-la saindo do ovinho com aquela carinha feia de quem come minhocas
Morreu sem ter escapado pra rua
Ou andado de caminhão
Como muita gente, morreu por culpa de religião
Não porque se opunha a alguma
Morreu porque alguém inventou
Que santo como galinha com farofa
No além.