quinta-feira, 12 de julho de 2012

Claque



Cada gota de chuva
Uma pedrada na alma
Gotejando
Esperando.

A calma vem num andar aleijado
Cruza a esquina
Passos de lesma
A calma vem em doses homeopáticas.

Ponteiros de chumbo no teu relógio
Barro na ampulheta
Chuva lá fora
Tudo bem...

Teu estômago ronca
Mas é a alma que sente fome

É hora de sair pra comer
Se alimentar
Caçar...

Voltar pra casa
Cuspindo ossos
Vomitando dentes
Bocas.

Esse filme eu ja vi
Esse episódio é piloto
O piloto sumiu!
Sem rumo...

Mas a "claque" é fiel
Nunca omissa
Admiram tua beleza
Como devotos em missa

Choram do teu choro
E riem a cada tropeço teu
Sempre que a placa levanta.
(Risos)

A vida é mesmo uma tragédia anunciada
Cenas de um próximo capítulo que nunca chega
Fim de temporada
Gosto amargo
Deja vu.

Eu, gosto de te encontrar por ai
Dividir humor de banheiro
Sarcasmo
Torpor
Bulas de remédio.

domingo, 27 de maio de 2012

Vazio é prato cheio


Bato na mesa, com a certeza de quem mente
Deixo escapar uma mágoa pelo canto da boca
Um chiado baixo
No lado onde me falta um dente.

Péssimo ator esse na minha frente
Finge tão mal uma preocupação:
"Que lhe maltrata o coração?"
"Nada sério, que atormente"
"Conta, porque anda descrente?"
"Não é nada, juro. É esse tempo louco, ontem frio, hoje tão quente".

Alguém encheu o copo
Alguém entortou o corpo
A fumaça encheu o olhar
Eu me enchi de vazio
E o vazio encheu o lugar

Riem tanto que uma hora a risada fica gasta
E todo riso se cala, perde a graça
Tudo superficial
Tão superficial
Como essa mosca na cachaça
A moça nua no jornal.

Súbito arrepio pela nuca
A culpa, a desgraça
algo que amordaça
Silencia tudo, fica frio...
Porém, quebrado o silêncio, tudo passa
Ouvi gritos e berros
Alguém apanhou feio
"Tinha carta na manga e ai é trapaça!"

Estrangulo o riso
A moça me olha desconfiada
"Nunca reparei muito na sua cara, ela é assim, meio torta"
Faz cara (ainda torta) de quem pouco se importa...

É minha hora, é hora morta
O dono ja se mantém de pé pela porta
Uma última olhada no espelho vomitado do banheiro
Não me falta nenhum pedaço, sou um lixo, mas inteiro
Um último galanteio:
"Boa noite senhoras, boa noite cavalheiros".

Procuro meu chapéu e descubro então, que nunca tive um.
Uma olhada pro céu
Outra pro chão e então, uma oração:
"Nossa senhora dos bêbados
Que eu tenha um sono macio e justo
Na minha cama de tijolos".

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Memórias de um vampiro


Dentes afiados num sorriso amarelo
Cabelo penteado pra trás
Capa, roupa preta e pesada
Longe de alho,estaca e martelo

É certo que carrego em minhas costas alguns séculos
Ja escalei paredes de donzelas
Tomei vinho caro
Ja fui brisa, mora?
Ventania!
Maremoto!
Ja fui cão
Ja mordi e me deixei morder na mesma proporção

Aproveitei bem a adolescência
Minha e de muitos
Frequentei a "high-society"
Só entrava onde era convidado
É certo também que fui expulso com alho
Água benta de namorados ciumentos

Eu ja fui! E isso, ja foi...
Hoje, minha roupa é motivos de piada
Meus sapatos
Minha capa
Torrei toda a fortuna dos Vlads
Em jogatinas e quebra de bolsas
Trocas de moedas e inflação
Precisei vender toda a minha coleção dos Beatles
O melhor do verão romeno 67

Hoje, ouço Cleopatra Stratan
E moro de favor na casa de um tataraneto de igor
Trabalho numa fábrica
Sou assalariado e bebo vinho barato
Carrego um morcego dentro da carteira
Não condeno mais ninguém a vida eterna
Desanimei
E a única coisa que transmito é herpes
Não vejo a hora da eternidade passar.

domingo, 29 de abril de 2012

Bestas, bichos e monstros


A besta vinha num passo lento
Tinha o rosto fino
E parecia ter mil anos
Soltava fumaça pela boca e pelo nariz.
Trazia no colo seu bicho
De pelo claro
Cara amassada
Unhas cortadas
Laço na cabeça
Coleira prateada.
A besta não ousava carrega-lo pelo pescoço
Temia que suas patas tocassem o cimento.
Entraram então, em grande salão
De bela almofada,de mesa adornada.
No cimento, do lado de fora
Um outro bicho observava pela janela
Tinha a cara peluda
Faltavam-lhe os dentes
Tinha unhas grandes
Estava quase nu.
O bicho do lado de fora, nem sempre foi bicho
Adquiriu tal título ao perder o juizo
Passou a andar de quatro
Carregava dentro de si, um monstro
Responsável por seu tormento
Quando lá dentro foi servido ao bicho
Arroz, aveia e cordeiro
A besta entre dentes amerelos, riu...
O bicho frente ao banquete, latiu...
O bicho do lado de fora ao fitar, gruniu...
O monstro urrou.
Maltratou-lhe o estômago
Cuspiu ácido em sua barriga
Contorceu-se de dor
De fome.


*Na PetDelicia, restaurante para cães
os pratos variam entre R$6,00 e R$25,00

domingo, 15 de abril de 2012

Pedro e Marcelo (final)


Foi difícil voltar pra casa, foi difícil encarar o rádio de pilhas, a mesa de jantar, a caixa de ferramentas, as roupas no armário. Pedro se sentia como uma casca, algo oco, sem sentido. Deitava em sua cama e chorava por horas com a cabeça no travesseiro, apoiava-se na fragilidade da mãe, tão franzina e fraca como o próprio filho. Sentados no sofá da sala, acompanhados pelo “tic-tac” desesperado e angustiante do relógio.
Aos poucos, os ponteiros lentos do relógio da parede foram colocando as coisas no lugar: a casa abriu as janelas, o sol entrou de mansinho, ouviu-se o movimento na rua, tocou uma música boa no rádio. Cansado da janela e da TV, Pedro decidiu andar, só andar, não muito longe, andar pra chegar em lugar nenhum, andar! Saiu com passos lentos e inseguros, atravessou a rua e continuou andando, olhava sempre pra baixo. Mirou dedos vazando de uma sandália e colidiu em algo fofo, olhou pra cima e viu um enorme rosto rosado, ainda maior pela lente de seus óculos. A curiosidade de Berenice torturava o pequeno. Pedro nessa hora era uma dessas xícaras de café cheia até a borda, que você sabe que vai derramar enquanto leva a boca. E ele transbordou, lembrou do pai, de toda a dor, da saudade. Saiu correndo enquanto Berenice ainda perguntava todo tipo de coisa. Correu, correu até o campinho, queria sumir. Parou debaixo da jabuticabeira, abaixou a cabeça e colocou as mãos no joelho, tentava respirar e tentava não chorar, a asma só dava chance para uma coisa de cada vez e ele decidiu respirar. Engoliu o choro e encostou na árvore. Reconheceu os cabelos dourados de Marcelo sob o sol, no campinho, lá em baixo. Marcelo viu o amigo em pé em baixo da jabuticabeira. Os dois se observaram de longe por um tempo.
O céu estava colorido de pipas, lentamente a pipa de Marcelo pousava, enquanto ele enrolava a linha sem pressa. “Desculpem, mas eu preciso ir” disse sua pipa as outras, e desceu. Colocou pipa e carretel no chão e foi andando em direção ao amigo. Subiu o caminho de pedras sem pressa nenhuma, parou por um estante, olhou pro céu como se observasse as outras pipas, fez uma cara séria como se analisasse a competição, tapou o sol com a mão sobre a cabeça. Voltou então a subir o caminho até a jabuticabeira, agora olhava os próprios pés. Parou a certa distância do quatro-olhos e esboçou um sorriso, logo voltou atrás e fechou a boca subitamente! Imaginou que não era legal sorrir naquela hora. Abriu a boca e tentou dizer algo, fechou. Abriu a boca e fechou novamente, não sabia o que dizer. Pedro apenas olhava. Marcelo coçou a cabeça, tinha a boca contorcida. Então, se aproximou de Pedro, olhou através dos óculos, olhou bem nos olhos do pequeno, tinha um rosto sereno nessa hora. Marcelo enrolou os braços em volta do amigo de uma maneira desajeitada, bruta, era a primeira vez, em 11 anos que ele abraçava alguém. Abraçou forte, quase sufocou o pequeno. Marcelo abraçava ali a Pedro, abraçava a mãe que perdeu ainda bebê, abraçava o pai que nunca conheceu. Pedro foi forte e pela primeira vez na vida conseguiu administrar o choro, a asma e um abraço sufocante. Marcelo voltou os braços pra junto do corpo, sentia-se envergonhado e aliviado “é bom abraçar” pensou. Deu um tapa no ombro de Pedro e disse: “É muito viado mesmo”. Pedro riu.

domingo, 8 de abril de 2012

Pedro e Marcelo (parte 3)


Fez o caminho de volta pra casa mais rápido do que o habitual e pisava em poças, naquela segunda-feira que amanheceu chuvosa, de tempo fechado e dentes cerrados. “O que houve com aquele quatro-olhos” perguntava-se Marcelo. Em frente ao portão do pequeno, pode perceber que a casa não havia acordado para o novo dia, tinha janelas e portas fechadas, como olhos que dormem demais e boca que guarda algum segredo. Peregrinou durante os dois dias seguintes em frente a casa, que assim como o tempo, permanecia fechada. Finalmente, na quinta, enquanto Marcelo esperava em frente ao portão do amigo, pés que vazavam de uma sandália vieram em sua direção. Ela tinha a cara gorda e rosada, cabelos embaraçados numa mistura de tinturas, vestia um vestido florido que mais parecia uma imensa cortina e quando Marcelo a encarou, percebeu que o rosto daquela mulher ocupava todo o seu campo de visão. Dona Berenice fez um longo interrogatório, perguntou o que ele fazia ali, desconfiou. Logo depois, desarmada pelo olhar triste e sereno de Marcelo, Berenice franziu a testa e torceu a boca, disse então em tom ameno:
“-Pedro não volta tão cedo, foi pra casa de uma tia no centro, seu pai esta muito mal no hospital, teve um mal súbito o pobre homem. Culpa dos excessos com o cigarro! Nunca fume meu filho, nunca fume!”
Marcelo se perguntava o que “excesso” e “mal súbito” queriam realmente dizer, mas pode constatar pela dificuldade das palavras, de que se tratava de algo sério. Foi pra casa.
Pedro tinha no pai, o maior de seus heróis. Gostava de deitar do lado dele toda noite após o jantar para ouvir rádio. Ouviam o noticiário noturno e debatiam as noticias, ouviam também o programa de humor e riam alto das mesmas piadas requentadas. Por vezes eram repreendidos pela mãe, que tentava assistir na sala a sua novela, isso tornava ainda mais divertido aquela bagunça toda. Pedro corria na caixa de ferramentas e buscava o alicate, depois, voltava correndo atrás de um fusível, era um ajudante exemplar de seu pai, que consertava todo tipo de coisa. As vezes procurava na caixa por ferramentas de nomes complicados e estranhos, ria sozinho ao descobrir, depois de um tempo considerável, que elas não existiam. Ria ainda mais ao ouvir as gargalhadas do pai, que sempre pregava peças assim nele. Eram amigos, grandes amigos.
Na casa da tia, o pequeno vivia na janela observando os carros. Tentava tirar da cabeça tudo o que aconteceu no domingo a noite, quando viu que o herói da casa clamava por ar e apertava o peito com as duas mãos, tinha nos olhos uma expressão grave. A mãe passava a noite no hospital e quando estava em casa, tentava amenizar a situação, dizia que ia ficar tudo bem e que logo tudo voltaria ao normal. Numa tarde, a mãe de pedro não apareceu na casa da irmã. O pequeno estava na janela quando a tia atendeu o telefone, enclinou a cabeça pra ver se conseguia ouvir algo . Ouviu só o silêncio, o silêncio mais desesperador que se pode ouvir, não conseguia nem mais ouvir os carros lá fora, pensou ter perdido a audição. Tinha o coração pequeno nessa hora e a cada passo que a tia dava em sua direção, sentia o coração diminuir ainda mais. Soube então que a partir daquele dia, nada seria como antes e que nada voltaria ao normal...

(continua)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Pedro e Marcelo - parte 2



Num domingo de sol, todas as crianças estavam na rua, podia-se ouvir os gritos e as gargalhadas, bicicletas disputavam corridas de poucos metros, pipas enchiam o céu azul de diferentes cores e o vendedor de picolé soava como um tenor, tentando sem sucesso impor a sua voz meio a gritaria. Nesse mesmo domingo, certa ansiedade dominava Marcelo, nesse dia ele iria almoçar na casa do novo amigo. Foi a primeira vez, no alto de seus 11 anos, em que era convidado para almoçar na casa de alguém, na verdade, era a primeira vez que ele era convidado pra qualquer coisa. Sempre ficava de fora das festas de aniversário, batizados, comemorações de qualquer tipo.
As onze horas, uma hora antes do combinado, era possivel ver Marcelo andando pela rua. Subiu e desceu, rodopiou o quarteirão, perguntava a toda hora que horas eram e contava a partir de então os minutos mentalmente. Usava uma calça de tamanho menor, seus sapatos eram visivelmente maiores e a sua camisa era a mesma de sempre.
Quando faltavam cinco minutos para uma hora, parou em frente ao portão de Pedro, era um portão de madeira velho, os muros eram baixos e a casa tinha duas janelas pra rua. Uma casa muito simpática e acolhedora, de cor amarela. Marcelo secou o suor da testa, limpou também as pequenas goticulas de suor que se formava sobre sua boca e soltou o ar numa baforada pesada, tentando aliviar a ansiedade. Foi chamado por pedro, num berro contido e atravessou o portão com passos largos.
Foi saudado pela mãe de pedro logo na porta e estranhou o sorriso que ela tinha no rosto, desconfiou, balançou a cabeça num comprimento rápido e entrou. A porta de entrada revelava uma sala simples, com um sofá vermelho, uma estante de madeira com alguns porta-retratos e uma TV. Viu alguns quadros do amigo na parede, os quadros em ordem crescente, mostravam Pedro desde bebê até a idade atual, pode concluir então, que o pequeno era esquisito desde que nasceu.
Na mesa, estava sentado o Pai de pedro, tinha um ar sereno e uma voz cansada, usava óculos e barba. Chamou Marcelo pelo nome e puxou com alguma dificuldade a cadeira para o convidado se sentar. O cheiro que vinha da cozinha era muito bom. Antes do almoço ser servido, conversaram sobre muitos assuntos: futebol, televisão, quadrinhos. Descobriram que os dois estudavam na mesma escola e que nunca se encontraram porque Pedro nunca ia na quadra e Marcelo nunca aparecia na sala de aula. Quando o almoço foi servido, Marcelo disfarçou bem a fome que tinha: comeu devagar, mastigou com a boca fechada e conteve a vontade de repetir, porém ficou evidente no seu olhar e foi percebido por todos a fome que ele tinha de uma mesa pra sentar, alguém pra conversar, pra chamar de "pai", de "mãe". Ele poderia facilmente abdicar de sua saúde perfeita e ganhar algumas alergias, para fazer parte daquela familia.
Na hora de ir embora, quando a noite começava a cobrir o bairro de negro, combinou com o amigo de encontra-lo na escola no dia seguinte, como duvidava que Pedro apareceria na quadra, Marcelo faria um esforço e iria até a sala de aula. Foi embora e no dia seguinte, quando olhou com um olhar desconfiado pra dentro da sala de aula, viu que Pedro não estava por lá.

(continua)