Lembro perfeitamente, parece que foi ontem e ao mesmo tempo me parece outra vida.
E era! outra vida, diferente da minha vida atual. Lembro dos anúncios de TV, a televisão me parecia inocente, mesmo olhando com meus olhos de hoje. E foi nela, na televisão que eu vi.
O bordão hoje totalmente ultrapassado era novinho em folha. (novinho em folha já soa datado... to velho!).
Será um pássaro? Será um avião? Não! É o Super-homem! Foi como uma revolução silenciosa diante de meus olhinhos curiosos, “como ele faz aquilo? Mãe! Olha! Quem é? Vai passar na TV”!
Naquele dia eu esperei, e depois da sempre chata novela das oito, que tem esse nome porque há muito tempo ela começava realmente às oito, iria começar minha vida, meus sonhos, meu filme!
Maravilhado assisti cada minuto da trama sem me mexer, era perfeito! O ultimo filho de Krypton voava, saltava, segurava helicópteros com uma mão, era sensível, pagava seus impostos, tinha um bom emprego, era um democrata... Eu queria ser ele!
Levantei da poltrona, não queria perder nenhum minuto, eu era o filho bastardo de Krypton, queria voar também, ter visão de raio-x, dar pontapés nos bandidos, ter dentes branquinhos e olhos azuis.
Mas resolvi deixar pro outro dia, já que pelas leis de Krypton era preciso respeitar a hierarquia familiar, e minha mãe me mandava pra cama.
Levantei antes do despertador, com um fôlego renovado, cheio de vontade na vida, eu era o Super-homem, só precisava de um uniforme. E depois de uma procura intensa pela casa e pelo armário, quando já tinha perdido as esperanças, vi.... A capa do botijão, botijão de gás! Era perfeita, tinha até cordinha pra amarrar no pescoço! Tinha umas flores bordadas também, mas isso eu ignorei, já que capas de botijão nunca viriam com a insígnia do meu herói favorito... Então éramos eu, minha imaginação e a capa do botijão!
Corria pela casa atrás dos bandidos imaginários, saltava de um sofá pro outro como se fossem prédios, criava meus próprios efeitos sonoros, o roteiro da minha história eu escrevia, sempre baseado no clichê claro!
Na escola eu era só eu mesmo, usava minha identidade secreta. Mas quando ninguém estava olhando eu voava até minha sala ou fugia da mesma pela janela, meus poderes eram infalíveis, nem o plano "Cruzado" era mais forte do que eu (o tempo demonstrou isso).
Fui muito, muito feliz... Eu parecia indestrutível, nada abalava a minha fé no meu herói, nem quando a professora contou uma história absurda sobre guerra fria, Estados Unidos (onde meu herói vivia), URSS, corrida espacial, patriotismo... Enfim, a cretina disse que meu herói era uma criação capitalista, que as cores do seu uniforme eram o mesmo da bandeira Yankee, que tinha cara de universitário americano. Ridículo! Eu não acreditei nela... era só... Mal-humor. Deve ser por que ela já era velha... Nunca tinha casado. Ainda hoje não acredito nela, mesmo percebendo que o homem de aço Nunca usaria uma roupa laranja ou verde! E sobre a cara dele... Como ele deveria ser? Ter rosto fino? Cabelo baixo e ruim? Nariz grande? Ele deveria se parecer com um judeu??? Nem Jesus se parece! Minha professora estava errada, e tenho certeza que se ainda viva, ainda solteira.
Minha capa se perdeu no tempo, eu mesmo me perdi, meu herói perdeu espaço pras futilidades da adolescência, passou a vender pouco.
Morreu e ressuscitou, virou seriado, casou, teve filhos...
Hoje a novela começa as nove... ainda é chata, criança não pode ver,
Nem esperar pelo programa que vem a seguir, alguém vai atirar em alguém, super-homem não vai aparecer... nunca mais vi uma capa de botijão... meus roteiros perderam a graça...cresci.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
cena de filme
Deitado no sofá, Zé era o retrato do abandono. Barba por fazer, roupa de dois dias atrás e macarrão instantâneo agarrado nos cabelos. Aliás, macarrão instantâneo e salgados de bar eram as únicas refeições possíveis, desde que Joana, sua esposa, havia partido. Joana estava na casa da mãe, que ficava no interior, a alguns quilômetros do sofá de Zé. E a “jararaca”, que era como seu genro a apelidara, fazia jus a tal apelido. Pois fez a cabeça da filha para que deixasse Zé depois que ele perdeu o emprego. Ela dizia que aquilo não era homem! Não tinha um emprego decente, não tinha um carro decente, um nome decente! E que amor... Isso era coisa de filme. Joana, sempre submissa as ordens da mãe, se foi.
Com o coração apertado Zé sofria sozinho em casa. Não saia na rua, evitava a luz do sol, o rádio, evitava se olhar no espelho. Evitava principalmente o quarto, onde a imagem de Joana se fazia absurdamente presente e o armário vazio era a imagem da morte.
Fazia uma semana de solidão e pelo andar da carruagem, Zé não duraria mais dois dias. Se não morresse de tristeza os salgados de Tião (dono do bar) o fariam. Então ao por uma jaqueta surrada antes de sair em busca de alimento, futucou as mãos num bolso escondido na parte de dentro do agasalho a fim de procurar alguma nota perdida. Puxou um guardanapo esquecido, numa letra apagada um singelo: “Te amo” escrito por sua esposa. Sua visão embaçou e logo molhou o papel com seu choro. Zé trincou os dentes e brigou com Deus, gritou e amassou o guardanapo. Então foi até o banheiro e se olhou no espelho. “Acabou” ele disse. “acabou o drama! Acabou a dor e a covardia!” bradou como um guerreiro desses de filme. Fez a barba, tomou banho e colocou a camisa que ganhou da mãe em seu casamento. Pegou a chave do Fusca e saiu!
Dirigiu até a casa da sogra e parou devagar no portão, tentou não fazer barulho, mas o motor de seu fusca era bem explícito em seu trabalho árduo. Caminhou até a porta da cozinha que se fazia entreaberta. Não conseguia ver nada, porém ouviu bem o que sua sogra dizia sobre ele. Aguentou tudo o que a velha dizia, quando palavras como: “manézão” e “bobalhão” formam proferidas pela cobra, Zé encheu-se de ira! Afastou-se, meteu o pé na porta a fim de causar impacto. E causou! As dobradiças enferrujadas daquela velha porta não agüentaram o chute e toda a porta veio abaixo fazendo um barulho estridente de madeira e ferro no chão.
Zé hesitou por um momento sob o portal da casa, então entrou imponente. Puxou a camisa de botões pela parte de baixo e estufou o peito, nesse momento a camisa mostrou-se aberta na parte de cima e num peito branco e magro um único fiapo de cabelo se revelou. Joana que estava na mesa separando feijões ficou pasma com a atitude surpreendente do marido e a sogra estava de pé, próxima ao fogão. Quando a velha ergueu a colher de pau e se preparou para exculhambar o invasor, ele disse em uma voz gutural: “Cala a boca!”. Na mesma hora a velha, que desde criança sempre se mostrou “mandona” e que gritava com todas as outras crianças, namorados, marido e filha, calou-se. E aquele grito foi tão imponente que fez a sogra de Zé sentir certo arrepio na nuca e ter partes esquecidas pelo tempo, levemente lubrificadas.
Joana parecia não acreditar naquilo, naquela cena de filme. Parecia não acreditar que seu príncipe arrebentara a porta e tinha um fusca do lado de fora à sua espera. Zé caminhou até a mulher, segurou suas mãos, olhou dentro dos olhos dela e disse: “Te amo mulher! Pega tuas malas, vamo comigo!”
Joana levantou-se da mesa e foi logo pegar as coisas dela, enquanto a mãe, recobrando o juízo, ou a falta dele, danou a berrar como louca! Tanto Zé como Joana ignoravam as ataques malvados da velha, que carregava a panela de arroz e tentava convencer a filha de que era errado, que amor é coisa de filme.
Foram juntos até o carro, colocaram as roupas no banco de traz e entraram, ainda com os protestos da mãe. Zé perdeu ainda uns minutos tentando fazer seu carro pegar e a sogra nesse tempo perdia a voz, já rouca. Saíram cantando pneu e deixando uma nuvem de óleo queimado na cara da sogra, que ainda berrava do portão.
Se foram felizes para sempre, não sei. Se foram felizes até onde o carro de Zé agüentou, também não sei. Se tiveram filhos não sei. Não sei de mais nada. Eu fiquei aqui, antes da curva, e vi o carro de Zé sumir entre a fumaça.
Com o coração apertado Zé sofria sozinho em casa. Não saia na rua, evitava a luz do sol, o rádio, evitava se olhar no espelho. Evitava principalmente o quarto, onde a imagem de Joana se fazia absurdamente presente e o armário vazio era a imagem da morte.
Fazia uma semana de solidão e pelo andar da carruagem, Zé não duraria mais dois dias. Se não morresse de tristeza os salgados de Tião (dono do bar) o fariam. Então ao por uma jaqueta surrada antes de sair em busca de alimento, futucou as mãos num bolso escondido na parte de dentro do agasalho a fim de procurar alguma nota perdida. Puxou um guardanapo esquecido, numa letra apagada um singelo: “Te amo” escrito por sua esposa. Sua visão embaçou e logo molhou o papel com seu choro. Zé trincou os dentes e brigou com Deus, gritou e amassou o guardanapo. Então foi até o banheiro e se olhou no espelho. “Acabou” ele disse. “acabou o drama! Acabou a dor e a covardia!” bradou como um guerreiro desses de filme. Fez a barba, tomou banho e colocou a camisa que ganhou da mãe em seu casamento. Pegou a chave do Fusca e saiu!
Dirigiu até a casa da sogra e parou devagar no portão, tentou não fazer barulho, mas o motor de seu fusca era bem explícito em seu trabalho árduo. Caminhou até a porta da cozinha que se fazia entreaberta. Não conseguia ver nada, porém ouviu bem o que sua sogra dizia sobre ele. Aguentou tudo o que a velha dizia, quando palavras como: “manézão” e “bobalhão” formam proferidas pela cobra, Zé encheu-se de ira! Afastou-se, meteu o pé na porta a fim de causar impacto. E causou! As dobradiças enferrujadas daquela velha porta não agüentaram o chute e toda a porta veio abaixo fazendo um barulho estridente de madeira e ferro no chão.
Zé hesitou por um momento sob o portal da casa, então entrou imponente. Puxou a camisa de botões pela parte de baixo e estufou o peito, nesse momento a camisa mostrou-se aberta na parte de cima e num peito branco e magro um único fiapo de cabelo se revelou. Joana que estava na mesa separando feijões ficou pasma com a atitude surpreendente do marido e a sogra estava de pé, próxima ao fogão. Quando a velha ergueu a colher de pau e se preparou para exculhambar o invasor, ele disse em uma voz gutural: “Cala a boca!”. Na mesma hora a velha, que desde criança sempre se mostrou “mandona” e que gritava com todas as outras crianças, namorados, marido e filha, calou-se. E aquele grito foi tão imponente que fez a sogra de Zé sentir certo arrepio na nuca e ter partes esquecidas pelo tempo, levemente lubrificadas.
Joana parecia não acreditar naquilo, naquela cena de filme. Parecia não acreditar que seu príncipe arrebentara a porta e tinha um fusca do lado de fora à sua espera. Zé caminhou até a mulher, segurou suas mãos, olhou dentro dos olhos dela e disse: “Te amo mulher! Pega tuas malas, vamo comigo!”
Joana levantou-se da mesa e foi logo pegar as coisas dela, enquanto a mãe, recobrando o juízo, ou a falta dele, danou a berrar como louca! Tanto Zé como Joana ignoravam as ataques malvados da velha, que carregava a panela de arroz e tentava convencer a filha de que era errado, que amor é coisa de filme.
Foram juntos até o carro, colocaram as roupas no banco de traz e entraram, ainda com os protestos da mãe. Zé perdeu ainda uns minutos tentando fazer seu carro pegar e a sogra nesse tempo perdia a voz, já rouca. Saíram cantando pneu e deixando uma nuvem de óleo queimado na cara da sogra, que ainda berrava do portão.
Se foram felizes para sempre, não sei. Se foram felizes até onde o carro de Zé agüentou, também não sei. Se tiveram filhos não sei. Não sei de mais nada. Eu fiquei aqui, antes da curva, e vi o carro de Zé sumir entre a fumaça.
domingo, 28 de março de 2010
Velho
Esse velho aqui sou eu
Sentado no sofá, mastigando a própria língua.
Esse velho aqui sou eu
Mal-humorado e chato
Evitado por crianças e gatos.
Esse velho sentado no sofá
Sem entender nada do que vê na TV, sou eu.
Velho, velho,velho...
Esse velho que perdeu tudo o que tinha sou eu
Que ficou pra trás
Esse velho sentado no sofá sou eu,
Esqueço meu próprio nome as vezes...
Mas sempre lembro de você.
Sentado no sofá, mastigando a própria língua.
Esse velho aqui sou eu
Mal-humorado e chato
Evitado por crianças e gatos.
Esse velho sentado no sofá
Sem entender nada do que vê na TV, sou eu.
Velho, velho,velho...
Esse velho que perdeu tudo o que tinha sou eu
Que ficou pra trás
Esse velho sentado no sofá sou eu,
Esqueço meu próprio nome as vezes...
Mas sempre lembro de você.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Hoje eu não vou pra escola
Hoje eu não vou pra escola, vou te encarar na cozinha com um olhar sério e pidão, você cúmplice de meus mimos vai balançar a cabeça em sinal de aprovação.
Vou almoçar sem a pressa corriqueira e ouvir a condução se distanciar sem me preocupar.
Observar com olhar curioso tua mão suja de sabão e perguntar por que se seca pratos.
Deitar no teu colo e ouvir histórias de quem viveu um pouquinho só mais que eu. Vou fazer perguntas absurdas e te pedir conselhos, também vou te divertir com os meus próprios conselhos de quem pouco viveu.
Stop-motion é o efeito usado no filme que assistimos na TV, stop-motion deveria ser usado nessa tarde no sofá, stop-motion hoje, porque amanhã eu vou ter que ir pra escola.
Deleito-me de teu colo e tua voz e desejo que esse momento dure pra sempre. Sei que não, sei que amanhã vai ter correria, sinal, gritaria, vozes e giz, mas isso, só amanhã, hoje, eu não vou pra escola.
Vou almoçar sem a pressa corriqueira e ouvir a condução se distanciar sem me preocupar.
Observar com olhar curioso tua mão suja de sabão e perguntar por que se seca pratos.
Deitar no teu colo e ouvir histórias de quem viveu um pouquinho só mais que eu. Vou fazer perguntas absurdas e te pedir conselhos, também vou te divertir com os meus próprios conselhos de quem pouco viveu.
Stop-motion é o efeito usado no filme que assistimos na TV, stop-motion deveria ser usado nessa tarde no sofá, stop-motion hoje, porque amanhã eu vou ter que ir pra escola.
Deleito-me de teu colo e tua voz e desejo que esse momento dure pra sempre. Sei que não, sei que amanhã vai ter correria, sinal, gritaria, vozes e giz, mas isso, só amanhã, hoje, eu não vou pra escola.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Morreu jovem
Morreu jovem, pouco tinha visto da vida. Assassinada cruelmente e jogada numa esquina pouco movimentada. Morta em vão! Nada no mundo mudou após sua morte, nenhum casamento desfeito ou cargo ocupado. Nenhum amor conquistado ou carne liquidado. Morreu em vão. Nem teve a dignidade de alimentar a família na mesa de domingo. Nem, a bela sensação de esquentar a casca de sua prole, de vê-la saindo do ovinho com aquela carinha feia de quem come minhocas. Morreu sem nem ter escapado pra rua ou andado de caminhão. Como muita gente, morreu por culpa de religião. Não porque se opunha a alguma, mas, porque alguém inventou que santo come galinha com farofa e dendê no além!
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Fila de banco
A solidão atormentava esse ser de passos tortos. Sempre andei muito sem rumo e olhando pra baixo, sempre pra baixo! Olhar para baixo tem suas vantagens, evita pisar em dejetos caninos, tropeções e buracos. Porem, com minha desatenção e falta de sorte além de não evitar nada do que citei ainda me garantia cabeçadas em placas e trombadas. Uma vez, na fila do banco, olhava eu pra baixo e pensava na minha miserável vida. Pensava, pensava. Fila de banco é um ótimo lugar para praticar perguntas que não possuem respostas fáceis, exemplo: De onde eu vim? Pra onde eu vou? Qual o sentido da vida? Por que a fila de idosos demora mais do que a fila comum? Todo banco tem três tipos característicos de “caixa”: um velho reclamão, um sujeito novo, porém calvo e uma morena linda, por quê?
Eu me fazia as mesmas perguntas e quando eu vi que apenas um atendente era o responsável por gigantesca fila, fui além. Perguntei-me o porquê da minha solidão, o porquê de meu edredom de casal nunca ter sido antes desdobrado, só haver um chinelo em baixo da cama e apenas uma escova de dente no armário. Eu olhava fixamente para um ponto, e não via nada, estava num devaneio tão profundo que me desliguei de tudo, parecia que não estava ali, na fila do banco. Durou uns 2 minutos, esse meu devaneio, acordei de súbito! Com um arrepio na nuca e uma sensação estranha, quando meus olhos focaram de fato o local que miravam, eu a vi: morena, nem baixa nem alta, não muito gorda e não muito magra, nem bonita nem feia, porém linda a meus olhos, nota cinco! Ela me olhava com a mesma convicção que imaginou que eu olhava pra ela, no meu “transe”. Coincidentemente fixei os olhos nela e funcionou. Retribui seu sorriso e me apaixonei instantaneamente. Creio que o que mais me despertou interesse nela foi o fato dela se interessar por mim. Depois de pagar seus boletos ela ainda se virou pra mim, sorriu novamente e se foi. Minha covardia me proibiu de sair da fila e ir atrás dela, lamentei profundamente.
Depois disso, sempre voltei naquele banco atrás dela. Eu era uma espécie de “Office boy” da família, me oferecia pra pagar todo tipo de contas. Tornei-me cliente do banco, fiz seguro, poupança e titulo de capitalização. Fiquei amigo dos seguranças e às vezes ficava após ter resolvido algo, de papo com eles, na esperança de que ela aparecesse de novo. Nada! Alguns meses depois, voltei no banco com minha fatura sempre atrasada de TV a cabo, o atraso me permitia pagar “exclusivamente na agencia bancaria”. Fui com certa esperança de que a encontraria lá. Logo na entrada pude reparar que a fila era quilométrica e que minhas chances eram boas. Não a vi, perdi as esperanças e segurei as lagrimas como quem faz um esforço tremendo para carregar fardo pesado e de fácil quebra. Olhei pro chão, e então pro teto, respirei fundo e fui longe de novo, olhei fixamente pra lugar nenhum e meu devaneio, dessa vez algo triste assim, como uma bolinha de sabão, vazio, me dominou. Fiquei assim durante um tempo, quando uma voz as minhas costas me despertou: “O amigo! Olha a fila!” Voltei do transe num espanto e meus olhos viram então, um sujeito, de uns cinqüenta anos, bigode, cabelo estilo militar, nem bonito, nem feio, nem alto, nem baixo, não muito magro e tampouco gordo, ele sorriu pra mim.
Eu me fazia as mesmas perguntas e quando eu vi que apenas um atendente era o responsável por gigantesca fila, fui além. Perguntei-me o porquê da minha solidão, o porquê de meu edredom de casal nunca ter sido antes desdobrado, só haver um chinelo em baixo da cama e apenas uma escova de dente no armário. Eu olhava fixamente para um ponto, e não via nada, estava num devaneio tão profundo que me desliguei de tudo, parecia que não estava ali, na fila do banco. Durou uns 2 minutos, esse meu devaneio, acordei de súbito! Com um arrepio na nuca e uma sensação estranha, quando meus olhos focaram de fato o local que miravam, eu a vi: morena, nem baixa nem alta, não muito gorda e não muito magra, nem bonita nem feia, porém linda a meus olhos, nota cinco! Ela me olhava com a mesma convicção que imaginou que eu olhava pra ela, no meu “transe”. Coincidentemente fixei os olhos nela e funcionou. Retribui seu sorriso e me apaixonei instantaneamente. Creio que o que mais me despertou interesse nela foi o fato dela se interessar por mim. Depois de pagar seus boletos ela ainda se virou pra mim, sorriu novamente e se foi. Minha covardia me proibiu de sair da fila e ir atrás dela, lamentei profundamente.
Depois disso, sempre voltei naquele banco atrás dela. Eu era uma espécie de “Office boy” da família, me oferecia pra pagar todo tipo de contas. Tornei-me cliente do banco, fiz seguro, poupança e titulo de capitalização. Fiquei amigo dos seguranças e às vezes ficava após ter resolvido algo, de papo com eles, na esperança de que ela aparecesse de novo. Nada! Alguns meses depois, voltei no banco com minha fatura sempre atrasada de TV a cabo, o atraso me permitia pagar “exclusivamente na agencia bancaria”. Fui com certa esperança de que a encontraria lá. Logo na entrada pude reparar que a fila era quilométrica e que minhas chances eram boas. Não a vi, perdi as esperanças e segurei as lagrimas como quem faz um esforço tremendo para carregar fardo pesado e de fácil quebra. Olhei pro chão, e então pro teto, respirei fundo e fui longe de novo, olhei fixamente pra lugar nenhum e meu devaneio, dessa vez algo triste assim, como uma bolinha de sabão, vazio, me dominou. Fiquei assim durante um tempo, quando uma voz as minhas costas me despertou: “O amigo! Olha a fila!” Voltei do transe num espanto e meus olhos viram então, um sujeito, de uns cinqüenta anos, bigode, cabelo estilo militar, nem bonito, nem feio, nem alto, nem baixo, não muito magro e tampouco gordo, ele sorriu pra mim.
Aconteceu num bar
Era um bar, mas também era lanchonete, sorveteria, restaurante e mercadinho. Tudo no seu devido horário é claro. De manhã, trabalhadores podiam tomar seu pingado junto de pão na manteiga enquanto assistiam o noticiário matinal na TV de 14 polegadas. Podiam também almoçar nos fundos do “bar”, onde era servida comida caseira de qualidade. A tarde era vez de a criançada consumir sorvetes e guloseimas, e a noite o clima de boteco era assumido, com grandes discussões filosóficas, futebolísticas e não raro, a novela das oito entrava em pauta. O dono do bar era um senhor simpático e bem-humorado, ele dividia seu tempo no balcão e nos fundos, onde era sua casa, apressando sua senhora sempre atarefada entre grandes panelas e salgadinhos.
E foi num domingo, quando o movimento no bar era pouco (na verdade não havia ninguém além de seu dono) que ele apareceu. Um rapazinho tímido, poucas vezes visto naquela pacata vizinhança apareceu. Ele vestia uma roupa obviamente escolhida pela mãe: camisa social, uma calça jeans super moderna com alguns apetrechos e mais uns zíperes opcionais e um sapato engraxado ao extremo. Eram exatamente 14h37min quando ele apareceu e ficou parado na porta do bar, como quem tem de ser convidado a entrar. E de fato, após algum tempo ali, parado, o dono do bar gentilmente pediu para que ele entrasse. Entrou cumprimento o sujeito baixinho atrás do balcão e sentou-se reto na cadeira. Pediu uma coca. O rapazinho ficou por algum tempo bebendo de maneira econômica sua coca e olhando para a TV, porém parecia inquieto e com o pensamento muito longe dali. A reprise de algum jogo do campeonato europeu passava naquela hora e um pouco incomodado com aquele silencio todo o homem atrás do balcão puxou assunto com o rapaz, este, aliviado se mostrou mais falante do que parecia. Conversaram então sobre futebol, filmes, musica da moda e novela das sete (que era a preferida do rapaz).
Depois de retornar ao silencio, que durou mais algum tempo o jovem revelou que tinha um encontro naquela tarde, que estava nervoso, que suas mãos suavam, além de sentir certa agonia boa no peito. O experiente dono do bar ficou feliz pelo rapaz e olhou contente para o belo dia que fazia lá fora, como se a situação completasse a beleza sutil daquela tarde de domingo. Logo depois ficou receoso com o horário, pois já passavam das 15hs. Então zapeando pelos canais da TV acharam um filme com grandes explosões e lutas, o que manteve suas atenções presas por algum tempo. Depois (em torno de 15h25min) o experiente senhor temeu por seu novo e simpático companheiro: “Será que ela vem mesmo?” se perguntou. Sentiu-se envergonhado e achou melhor não perguntar ao rapazinho, mas nessa hora estava visivelmente ansioso, assim como o jovem.
Enquanto o jovem bebia em goles homeopáticos a sua segunda bebida (dessa vez guaraná), o senhor foi até a porta, olhou em torno da praça, apenas algumas crianças jogavam bola e um bêbado dormia com a cabeça jogada pra trás num banco. Ficou com o coração pequeno então e voltou com passos ainda menores para trás do balcão. Evitou olhar para o rapaz e encarou severamente a televisão. Balançava as pernas de cima de seu banco de madeira e roia as unhas, nessa hora o jovem tinha a cabeça baixa e brincava com as marcas molhadas em cima de sua mesa. Aquilo foi demais para o coração do velho, que decidiu por fazer algo que abominava e que era impensável de ser feito num domingo, fazer algo que como ele mesmo definia: “era contra sua religião”. Muniu-se de vassoura, escovão e sabão e decidiu lavar o banheiro! Era impossível para ele acompanhar a agonia daquele menino, que provavelmente ficaria ali, a tarde toda, sem que aparecesse ninguém. Foi em direção ao banheiro com lágrimas nos olhos e sofria pelos dois naquela hora. Passou pelo rapaz sem dizer nada e se encaminhou para aquela tarefa árdua, porem, melhor do que acompanhar o sofrimento do novo amigo.
Quando estava na porta do banheiro, apareceu sobre a soleira da porta da frente, tinha cabelos à altura dos ombros, era castanho escuro e com cachinhos. Olhos cor de mel e um rosto que parecia ter sido esculpido a mão por talentoso artesão. Tinha um sorriso encantador, usava aparelhos e um vestidinho azul com borboletas brancas, linda! Era linda e sorria para o rapaz. Enfim, havia chegado. Eram exatamente 16hs e ela não chegou nem um minuto antes e nem depois do combinado, eram 16hs em ponto.
O dono do bar sorriu aliviado, aliviado por ambos! Largou esfregão, sabão e vassoura, desligou a TV, ligou o rádio na estação mais romântica da tarde e sentou-se na parte de fora do bar, a fim de dar alguma privacidade ao casal. Olhou para o sol, encarou o bêbado e o cumprimentou. Sorriu feliz então. As “mãos suadas” e a “agonia boa” fizeram o rapaz sair muito mais cedo de casa.
E foi num domingo, quando o movimento no bar era pouco (na verdade não havia ninguém além de seu dono) que ele apareceu. Um rapazinho tímido, poucas vezes visto naquela pacata vizinhança apareceu. Ele vestia uma roupa obviamente escolhida pela mãe: camisa social, uma calça jeans super moderna com alguns apetrechos e mais uns zíperes opcionais e um sapato engraxado ao extremo. Eram exatamente 14h37min quando ele apareceu e ficou parado na porta do bar, como quem tem de ser convidado a entrar. E de fato, após algum tempo ali, parado, o dono do bar gentilmente pediu para que ele entrasse. Entrou cumprimento o sujeito baixinho atrás do balcão e sentou-se reto na cadeira. Pediu uma coca. O rapazinho ficou por algum tempo bebendo de maneira econômica sua coca e olhando para a TV, porém parecia inquieto e com o pensamento muito longe dali. A reprise de algum jogo do campeonato europeu passava naquela hora e um pouco incomodado com aquele silencio todo o homem atrás do balcão puxou assunto com o rapaz, este, aliviado se mostrou mais falante do que parecia. Conversaram então sobre futebol, filmes, musica da moda e novela das sete (que era a preferida do rapaz).
Depois de retornar ao silencio, que durou mais algum tempo o jovem revelou que tinha um encontro naquela tarde, que estava nervoso, que suas mãos suavam, além de sentir certa agonia boa no peito. O experiente dono do bar ficou feliz pelo rapaz e olhou contente para o belo dia que fazia lá fora, como se a situação completasse a beleza sutil daquela tarde de domingo. Logo depois ficou receoso com o horário, pois já passavam das 15hs. Então zapeando pelos canais da TV acharam um filme com grandes explosões e lutas, o que manteve suas atenções presas por algum tempo. Depois (em torno de 15h25min) o experiente senhor temeu por seu novo e simpático companheiro: “Será que ela vem mesmo?” se perguntou. Sentiu-se envergonhado e achou melhor não perguntar ao rapazinho, mas nessa hora estava visivelmente ansioso, assim como o jovem.
Enquanto o jovem bebia em goles homeopáticos a sua segunda bebida (dessa vez guaraná), o senhor foi até a porta, olhou em torno da praça, apenas algumas crianças jogavam bola e um bêbado dormia com a cabeça jogada pra trás num banco. Ficou com o coração pequeno então e voltou com passos ainda menores para trás do balcão. Evitou olhar para o rapaz e encarou severamente a televisão. Balançava as pernas de cima de seu banco de madeira e roia as unhas, nessa hora o jovem tinha a cabeça baixa e brincava com as marcas molhadas em cima de sua mesa. Aquilo foi demais para o coração do velho, que decidiu por fazer algo que abominava e que era impensável de ser feito num domingo, fazer algo que como ele mesmo definia: “era contra sua religião”. Muniu-se de vassoura, escovão e sabão e decidiu lavar o banheiro! Era impossível para ele acompanhar a agonia daquele menino, que provavelmente ficaria ali, a tarde toda, sem que aparecesse ninguém. Foi em direção ao banheiro com lágrimas nos olhos e sofria pelos dois naquela hora. Passou pelo rapaz sem dizer nada e se encaminhou para aquela tarefa árdua, porem, melhor do que acompanhar o sofrimento do novo amigo.
Quando estava na porta do banheiro, apareceu sobre a soleira da porta da frente, tinha cabelos à altura dos ombros, era castanho escuro e com cachinhos. Olhos cor de mel e um rosto que parecia ter sido esculpido a mão por talentoso artesão. Tinha um sorriso encantador, usava aparelhos e um vestidinho azul com borboletas brancas, linda! Era linda e sorria para o rapaz. Enfim, havia chegado. Eram exatamente 16hs e ela não chegou nem um minuto antes e nem depois do combinado, eram 16hs em ponto.
O dono do bar sorriu aliviado, aliviado por ambos! Largou esfregão, sabão e vassoura, desligou a TV, ligou o rádio na estação mais romântica da tarde e sentou-se na parte de fora do bar, a fim de dar alguma privacidade ao casal. Olhou para o sol, encarou o bêbado e o cumprimentou. Sorriu feliz então. As “mãos suadas” e a “agonia boa” fizeram o rapaz sair muito mais cedo de casa.
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